Monday, July 29, 2024
Devo, não nego
A gente morre e fica tudo aí
Há tempos que o velho Cícero não veste camisa para sentar ao almoço. Depois que lhe faleceu a primeira mulher, até se arranjou com uma dona mais nova, mas não a obedece, perdeu os bons modos, mostra as presas. Está assim com todo mundo.
Dia desses, cansado de receber telefonemas enganosos sobre movimentações na sua conta bancária, berrou ao falsário do outro lado da linha uma tonelada de desaforos. Chamou-o de ladrão para baixo. O velho, que é branco como um milho novo, pintou-se todo de sangue na hora.
— Ninguém é honesto! - Reclama Cícero, entre um suspiro e outro, enquanto arrasta o corpo exausto entre o jardim e o quintal da casa.
E talvez ninguém seja mesmo. A sua nova mulher, que antes era uma diarista e cozinheira de suas marmitas, inventou de melhorar as receitas e foi coabitar com o velho. Mas nunca escondeu que está com ele para garantir sua sobrevivência, e reclama de não obter nada daquele pão-duro. E ela comenta essas coisas por todos os lugares onde anda, alegrando as rodas de fofocas.
Cícero chama o filho de “Devagar”. A nora, de “Onça”, “Sargentona” e “A Rainha Elizabeth”. Emprestou dinheiro a juros aos vizinhos, para ver se ganhava uma renda extra, mas foi lesado pelos que mais diziam ser amigos. Procurou uma igreja pequena e pagou o carnê da “Fogueira dos Empresários”, para receber dos devedores, mas o investimento não deu resultado. Só um segundo prejuízo.
Sua única solução foi viver na modéstia, dentro de casa mesmo, da rede para os tamboretes, ou para a espreguiçadeira, ou sob as mangueiras do quintal, onde come com sal as frutas verdes.
Crê que muitos esperam que o sal o mate, e depois esquece esse pensamento. Lembra da falecida, que tinha refluxo, e que somente depois da morte dela o refluxo passou a atacá-lo, parecendo uma herança. Recorda que todos os problemas da casa, desde uma conta de água que vinha alta até o mês em que cortaram a luz, tudo na rua e nas repartições era a esposa quem resolvia. Ele só ficava por trás, resmungando, reclamando, dando pressa.
— Fale com o dono dos porcos, não com os porcos — ele exigia.
Tem um enorme sentimento de dívida para com ela, para com o seu nome, para com a sua memória.
— Nem respeitaram o velório. Gente de bermuda e chinelo. A humanidade perdeu a compostura! - Rumina, magoado.
O velho Cícero é um homem quase asqueroso. Só não o é porque antes vive muito só, na lonjura onde andam os seus olhos secos, nos seus momentos de mudez e perplexidade, em que divaga em branco enquanto espera o suor pingar das rugas.
É homem de cera, e quando for para o céu (todos vão para o céu!) já chega lá banhado, para não dar trabalho, duro e cor de nuvem, da alvura do que não há.
Porque lhe basta uma hora morna na tarde, basta degustar o sabor familiar da manga ainda amarga para abstrair toda raiva e esquecer o refluxo e bendizer o sal que lhe talha a língua.
E se tornar um santo, como todos podemos ser, ao menos por meia hora, todos os dias. Ao menos quando desfrutamos, devotos, daquilo que nos dá gosto.
Esse seu coração
Meus parabéns agora
Um dia de rotina
Saturday, July 13, 2024
Mutirão e assombração
No dia 22 de abril de 1936 fomos trabalhar num mutirão na casa de Joaquim Jeremias, na fazenda Boa Sorte. Os encarregados foram Paulo e José Pequeno. Estive muitíssimo bem. O serviço foi feito com 15 homens. À noite, houve uma aposta de ver quem ia à casa da fazenda do Caldeirão, mal afamada de assombração, e de lá trazer umas folhas de cajazeira. Um foi e não trouxe. Outra aposta para ver quem ia à mesma casa e lá abrir uma porta da casa de farinha e por ela entrar no escuro e passar por toda a casa e ir à varanda e lá procurar uma mesa e desta tirar uma gaveta e trazer para a Boa Sorte, onde esperado por mais de 20 pessoas. Um rapaz disse que se pagassem a ele que ia e a gaveta trazia. Todos duvidaram e apostaram 5#000 réis para o tal ir e trazer. O caso da aposta foi que na casa tinha morrido um velho há muitos dias e na tal casa ninguém tinha coragem de ir de noite, por isso fizeram a aposta. A casa é muito velha e muito grande e já nela morreu muita gente e lá está para ser derrubada. O tal disse que ia e dissemos “pois vá que é garantido os 5# se trouxer a gaveta”. A noite era de escuro e chuva. Ele foi e quando veio foi com a tal gaveta. Foi uma grande ganzarra de todos que ali estavam. O tal ganhou os 5# e ofereceu a quem quisesse ir à casa velha do Caldeirão e levasse a gaveta e botasse a onde estava. Ninguém quis ir. Eu por minha vez gosto muito de dinheiro mas porém assim não o quero ganhar, pois tenho muito receio da tal casa velha do Caldeirão. Só mesmo quem não tem pena de si e não importa com as almas de quem já morreu.
Registro feito por Francisco Lisboa Oliveira encontrado e transcrito por seu sobrinho-neto Pedro Juarez Oliveira Pinheiro, com adaptações de Franklin Carvalho.
Thursday, June 13, 2024
O homem que não sabia escrever
O homem que não sabia escrever
(Para Antônio Torres*)
Naquele dia o homem não sabia escrever, jamais soubera.
Ele andava deserto pelas ruas de sua pequena cidade, iletrado igual nasceu, e a luz daquele dia o tornava também míope, com grave grau de embaçamento. Desistira, afinal, da palavra escrita.
Seguia sozinho, esquecido de suas antigas leituras e dos títulos oferecidos nas prateleiras das distinções. Não era mesmo, na sua memória, um nome de Letras e, talvez desejasse que os nomes e as letras o esquecessem.
Acabou indo parar na feira livre, o lugar mais seguro para quem evita as armadilhas domésticas que a morte urde.
Transitou pelos corredores tortos de barracas rústicas e parou no canto mais sinistro e escuro da feira. Sentou-se, enfim, num tamborete entre boxes que vendiam bebida, cercado de homens e mulheres embriagados e felizes.
Aquilo já era metade da tarde e o homem, ainda mais analfabeto que as pessoas à sua volta, baqueou por não saber se divertir daquele jeito. Notou que as mulheres, suadas e bêbadas de aguardente, tinham um pudor exagerado na defesa de uma beleza ausente, com um recato quase beato. Os homens, corroídos por suas rotinas precárias no trabalho ao sol, viam honra em ostentar qualquer delicadeza, um anel, um talismã, um chapéu, um relógio de pulso que os salvasse de serem totalmente pobres e rudes.
O homem recém-chegado lembrou-se de quando era criança e andava por ali mesmo, no meio de gente igual àquela, vendendo picolé ou mercando verduras ou tecidos, e que a tarde sempre era a hora de as vendas decaírem, principalmente se chovesse. Só quem tinha bar, e ele, quando menino, também atendera balcão de bar, via tarde e noite com bons olhos.
E agora, que vantagem grande! Agora que tinha desaprendido dos livros que prometeram salvá-lo, podia finalmente viver diferente.
E se fosse aquele estranho ali ao lado, de olhos vermelhos e rosto inchado? Essa era também uma forma de viver, não? E aquele outro, todo solícito, que bajula o cidadão que passa a troco de uns centavos para cigarros? E se fosse aquela mulher de vestido gasto, que apregoa mangas, as frutas murchas como seus seios, derramando mel dentro de uma bacia de alumínio, mamas vazando? Ou aquele outro, encardido, que nem os cães vadios toleram? Vida também, não? Se fosse neto e bisneto de pessoas de mínima herança e renovasse da sua própria forma erros e votos familiares de insuficiência?
Teria menos luz nos olhos? Isso é vida?
E se acreditaria amado e protegido pelos donos e patrões? E se sentiria mais pátria, igreja? Teria fé verdadeira em autoridades e documentos, em pessoas diplomadas?
O homem estava louco, ou bêbado sem uma gota de álcool, como o mais desconjuntado daqueles à sua volta, como um roto e mudo acocorado ao seu lado.
A única e grande diferença, e o homem não sabia descrevê-la porque não era, nunca fôra bom com as palavras, é que o seu coração continha ainda uma mágoa, uma lágrima, uma inquietação sem nome que era o seu amuleto, sua medalha, seu patuá.
Só por aquela condição não era totalmente cego, e tinha também alguma elegância.
Só por isso buscava naquela hora, na memória, alguma linha para formar letras, apenas um anúncio de traço que fosse, porque era o que lhe valia, por toda a vida: aprender, de novo e cada vez mais, a falar daquela gente que tanto o assombrava.
*Compartilhado por e-mail com o escritor em 10.6.2024