Tuesday, July 23, 2019
Terceiros
De como Romeu Raizeiro deixou de ser curandeiro
Monday, July 22, 2019
Biblioteca do Paiaiá, no sertão da Bahia, terá Festa Literária Internacional de 24 a 26/7
O povoado de São José do Paiaiá, no município de Nova Soure, em pleno sertão da Bahia, sediará nos dias 24 a 26 de julho uma festa literária que reunirá escritores, professores, artistas de diversas expressões e lideranças comunitárias para debater a criação, a produção cultural e a difusão de saberes. Além disso, a II Festa Literária Internacional da Biblioteca do Paiaiá contará com atrações do Circo Premier, feira agro-ecológica e de artesanatos rurais, venda, troca e doação de livros e revistas, a Biblioteca Volante da Fundação Pedro Calmon, exposição sobre terceira idade e saúde da mulher, bumba meu boi, banda de pífanos, a Filarmônica de Nova Soure, peças de teatro, projeções de filmes e cavalgada.
Localizado na rodovia BR 110, a 231 km de Salvador, São José do Paiaiá está na rota do peregrino Antônio Conselheiro de Canudos pelos Sertões da Bahia e possui, segundo a professora Walnice Nogueira Galvão, da Universidade de São paulo, a maior biblioteca em comunidade rural do mundo , com mais de 120 mil volumes. A instituição, fundada por um ex-morador do povoado, Geraldo Moreira Prado, tem 17 anos de existência e promove com alguns parceiros toda a programação da festa.
Entre os temas na pauta de debates estão a vida cotidiana da juventude, educação no campo, cordel e aboio, histórias em quadrinhos, educação e culturas indígenas, leitura e políticas culturais nos municípios, leitura e matemática, memes didáticos e contos africanos. Também serão abordados a bioética, a ancianidade e o direito de envelhecer com dignidade.
Durante as atividades serão homenageados o escritor baiano Carlos Anísio Melhor, falecido em 1991, o trabalhador rural Luiz Saldanha dos Santos, integrante do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Nova Soure, e a yalorixá D. Durvalina, única mãe de santo da região.
Estão confirmadas as presenças do ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, do prefeito de Conceição do Coité, Francisco Assis, da líder do Assentamento Cajuba, em Nova Soure, Raimunda Maria de Jesus, dos grupos de griôs de Santa Luz, dos escritores Aleilton Fonseca, Antenor Rita Gomes, Alex Simões, Darlan Zurc, Eraldo Miranda, Fábio Bahia, Franklin Carvalho, José Erenilson, Marcelo Torres, Uarlen Becker e do Quarteto Moxotó (Arcoverde-Pe). Além de educadores de instituições universitárias federais e estaduais e de gestores de bibliotecas, o evento mobiliza na sua organização jovens de várias escolas públicas das cidades vizinhas.
Foto: site da União de Prefeitos da Bahia
Contatos
e-mail: bibliotecapaiaia1@gmail.com
fanpage: @bibliotecacomunitariadopaiaia
Tels: 75 999753903 (WhatsApp) 75 34377070
Sobre a Biblioteca do Paiaiá
https://archive.org/details/vimeo-172825635
http://bibliotecadepaiaia.blogspot.com/
https://www.redebrasilatual.com.br/cultura/2017/08/uma-miragem-real-de-livros-no-sertao-da-bahia/
Tuesday, January 15, 2019
Borbulhar de sangue e água
O livro O Borbulhar do Gênio, de Saulo Dourado (Caramurê, 2018), que remonta à convivência do jurista Ruy Barbosa com o poeta Castro Alves ao longo do Século XIX, tem o esmero de uma pesquisa biográfica apurada, mas é sacudido o tempo inteiro pelos desmaios, tosses, calafrios, amargores, entusiasmos, espasmos, enfim, pelos hálitos desses personagens de saúde frágil.
Thursday, December 20, 2018
O golpe do falso editor e algumas meias verdades
Há cerca de um ano caí no golpe de um falso editor enquanto participava de um debate numa feira literária no exterior. O caso não teve maiores consequências, mas acabou virando anedota e deixou algumas lições. Tudo começou quando o funcionário da embaixada brasileira, que seria o mediador das discussões, recebeu a mim e ao Maurício de Almeida, participante da mesma programação, e nos apresentou a um figurão. Segundo o agente da diplomático, aquele homem teria imenso interesse em traduzir nossos livros.
A conversa foi rápida e logo adentramos o auditório para encontrar a sala cheia, o público interessado. Ao tomarmos assento, no entanto, o tal editor, sem ser convidado, meteu-se entre nós na mesa. Permaneceu ali todo o debate sem dizer uma palavra, apareceu nas fotografias e, tudo encerrado, evaporou como cânfora. O próprio agente diplomático nos deu o sinal de que havia sido enganado por aquele fanfarrão, cujo interesse não era dinheiro, apenas desfrutar de falso prestígio. O episódio ganhou alguma repercussão nos bastidores da feira, provocando risos nos envolvidos na produção, à exceção do anfitrião da embaixada, desnecessariamente mortificado.
Conto aqui esse fato para mostrar como o meio literário também respira a atmosfera do show business (There's no business like show business). Geralmente é área de ar rarefeito, mas pode carregar as virações, mormaços, redemoinhos e furacões do mundo da música, do cinema etc. Às vezes tem só uma brisa enganadora, como também acontece em outras artes. Aliás, já faz alguns meses, a imprensa levantou suspeitas sobre um prêmio literário internacional que prometia maravilhas, mas que não contava com patrocinador nem estrutura. De um lado, os jornalistas insistiam que era embuste, página de internet fraudulenta, registros falsos e outros indícios, e, do outro, os supostos charlatães alinhavando justificativas. Certo é que o prêmio não levantou voo e entrou para o folclore como um marco do nonsense.
Outra coisa que sempre me chocou e que ainda me choca aqui, ali, alhures, é perceber que esse mesmo meio literário reproduz todos os vícios da sociedade, da mesma forma que os departamentos universitários, as congregações, as santas casas, os partidos e as igrejas, enfim, os clubes de carteado. Disputas de poder acirradas, misoginia, filiações, estratificações de todos os tipos, sentimentos exacerbados e ilhas, algumas de excelência. A princípio isso me desconcertou porque eu vinha de outro sonho feliz de cidade, mas logo amigos das letras desfizeram o estranhamento revelando o óbvio: que a literatura não é feita no paraíso, nem na ilha flutuante de Gulliver.
Essa descoberta, felizmente, veio acompanhada do reconhecimento de indispensáveis gestos de solidariedade profissional, que garantem em todo lugar a sobrevivência dos artistas e do seu trabalho. Algo que nos faz ver além dos elogios, das bajulações e das incompreensões. Essa compreensão do ambiente nos fortalece também no convívio com nossos próprios estranhamentos e nossas inspirações, muitas vezes indomadas, e com as paranóias e mistificações em geral.
Em meio a essa permanente tempestade, a literatura tenta sobreviver no/ao negócio, mas mantendo sua substância. O escritor é como o Louco do Tarot, alienado a caminho do abismo, enquanto lhe gritam (ele surdo) que não se precipite. E até essa figura bizarra oferece uma imagem positiva para os cartomantes: a de um elemento introspectivo e ao mesmo tempo arrojado, sempre pronto a encerrar tudo, sempre pronto a recomeçar.
A literatura é salto para quem escreve e susto para quem a acompanha roendo as unhas, apreensivo com cada movimento. E todos, mesmo os fanfarrões, têm os olhos rutilados de desejo por essa aventura.
Friday, July 27, 2018
Entrevista ao jornal A Tarde - Flip 2018
Publico abaixo a íntegra da entrevista que dei ao repórter Eugênio Afonso Araújo Santos, do jornal A Tarde, falando sobre a minha participação na Flip 2018. O jornal divulgou algumas respostas em matéria a respeito do evento no dia 25/5/2018. No entanto, achei a entrevista interessante também em outros pontos.
Você participa da mesa 17, “De Malassombros”, no domingo. De que trata essa mesa? Como vai ser sua participação?
Vou discutir com a folclorista Thereza Maia, que pesquisou encantados e assombrações de Paraty e do Brasil, sobre a transmissão dessas tradições, oralmente e na literatura. Eu, com meus poucos recursos, escrevi um romance elaborado a partir dos temores e ritos em torno da morte. Continuo pesquisando essa temática porque acho que, na relação com o além, com o sagrado, nós brasileiros mantemos algumas artimanhas e fórmulas da vida cotidiana, da política etc. Quero falar, particularmente, sobre como fazer o leitor se reconhecer nessa “con-tradição”.
. Você ainda é servidor público ou somente escritor?
Sou servidor público também, trabalhando com jornalismo e edição de textos, o que me permite lidar com duas exigências diversas da narrativa. O jornalismo é muito dinâmico, influenciado pelo dia a dia, inclusive na linguagem e abordagem dos temas. Por isso prefiro escrever ficção à mão, para que seja uma experiência radicalmente à parte, transcendental, outra interpretação do mundo.
. Esta é a primeira vez que participa da Flip?
A primeira vez foi em 2007, fui conhecer a festa e ver Amós Oz, que me interessava muito. Voltei em 2016, já como ganhador do Prêmio Sesc de Literatura, mas sem o romance editado, para participar de um encontro na Casa do Sesc com o escritor pernambucano Mário Rodrigues, que recebeu a mesma premiação, mas na categoria Contos. Em 2017 apresentei Céus e Terra num café literário também promovido pelo Sesc, debatendo com a poetisa Cida pedrosa, outra pernambucana, sobre sertão e novas literaturas.
. Qual a importância da Festa para os escritores e o público em geral dentro do cenário da literatura no país?
A Flip é uma referência para outros eventos literários e para o próprio mercado, porque ao longo da sua história se articulou para responder demandas da sociedade, como a representação das mulheres, dos autores negros e das várias tendências da literatura. À medida que uma das maiores mobilizações, que tem a participação de personalidades significativas e ampla repercussão na imprensa, traz inovações, estimula a diversidade. Além da programação oficial existem muitos eventos que ocorrem paralelamente em Paraty, organizados por instituições nacionais, jornais, editoras de vários portes, enfim, é uma praça de artes que também atrai músicos, performancers etc.
. O que quer a sua literatura? O sertão nordestino continua presente nela?
O sertão é uma condição da alma, é dentro da gente, como já disse Guimarães Rosa. Para mim é um ritmo, espiritual e cardíaco. A respiração tem esse compasso de um monocórdio. É uma batida seca, sem excessos, mas viva. Lá na minha terra, Araci, que cito no Céus e Terra, fiz uma casa num lugar quase ermo, com quintal grande e algumas plantas. Não canso de ficar lá à noite, tudo apagado, olhando o mato e o silêncio – no sertão, dá para ver o silêncio passando, de tão denso que ele é. Vejo também a barra do horizonte e sei de onde vem o vento do mar, vem fresco. Levo algumas indagações do que estou escrevendo agora, algo sobre essa contemporaneidade desajuizada, urbana, quase uma distopia, e o sertão me aconselha, me desafoga.
. O que muda na vida de um escritor depois de ter um livro premiado?
O interessante do Prêmio Sesc é que ele coloca o vencedor no mercado editorial já pela publicação por uma grande editora, a Record. Então você entra na malha de distribuição e também é incluído na agenda de vários eventos, também graças à premiação. Isso amplia a sua percepção sobre os desafios que os artistas da área enfrentam, porque a literatura é muito inusitada, pode trazer decepções de onde se espera muito, e reconhecimento por parte de desconhecidos, de pessoas e instituições distantes. A literatura, com o perdão das más rimas, nos aproxima da amargura, mas também da cura. A inspiração, se você ainda a tem e a estimula, te fortalece para enfrentar as fortes frustações políticas, inclusive essa sandice neoconservadora e neomoralista atual. Nenhum autor está imune à crise do mercado editorial, além de outras, mas precisamos continuar criando.
. O que você acha da obra de Hilda Hilst, a homenageada da festa?
Ela era intensa na entrega, na doação, na coragem. Essa postura de procurar mover o leitor, de balançá-lo, mesmo que precisasse modificar totalmente o seu texto, mesmo que a condenassem por romper os padrões, é rara. Mesmo no tratamento de temas eróticos, embora desbocada, não abriu mão da qualidade narrativa nem da composição de personagens, principalmente isso. Acredito que o desejo mesmo era de usar todas as ferramentas, e ela as tinha, buscando interação com os leitores, sem meias palavras ou falsos pudores. Rejeitar qualquer solenidade atribuída aos escritores, aos editores. Hilda queria se comunicar com as possíveis formas de vida, até com os animais, os óvnis, e fez experiências domésticas tentando gravar sons do além. Aliás, acho que a Flip acaba refletindo o lado místico da homenageada levando escritores como o congolês Alain Mabanckou, e a russa Liudmila Petruschévskaia, que aproveitam narrativas da mitologia e da espiritualidade de suas terras nas suas obras. É um resgate desse universo simbólico, que também me interessa.
. Você acredita que há muita diferença entre a literatura que se produz no Nordeste e a do Sul e Sudeste do país?
Acho que existem algumas tendências que não são necessariamente regionais, mas algo do tipo “escolas”, ou influências. As oficinas de escrita promovidas por escritores mais conhecidos, por exemplo, a literatura que surge de comunidades periféricas e a autoficção, além de outros, formam gerações que já se consolidam. A diferença regional é o acesso à mídia, às editoras, ao chamado buzz, ou seja, à repercussão informal, das redes sociais, pois existem polos de distribuição da informação, mesmo em tempos de internet.

