Tuesday, July 23, 2019

Terceiros



Numa estranha manhã estávamos na agência dos Correios só homens, e Helena, uma mulher de meia-idade, bonita, chegou para tomar uma informação, gritando da porta para o atendente. Assim que ela se retirou os clientes na fila do balcão encetaram a conversa, primeiro em surdina, como se temessem a sua volta, depois mais relaxados.
— Mulher não dá sorte a marido! — Comentou um loiro, que tentava ser despachado primeiro.
— A qual deles? — Perguntou outro, mais atrás, um caboclo barbado com a camisa do Barcelona (ou era Paris Saint-Germain?).
— Já foram dois. O primeiro morreu de choque elétrico, o outro, de tétano — respondeu o gaiato que começara no assunto.
— E o atual também quase vai — gritou de dentro do balcão o atendente da agência. — Viajou com a gente para Barra e por pouco não se afogou no Rio São Francisco. Geraldão estava perto e puxou pelo braço.
— Olha aí o risco! – Retornou o loiro. Mas o torcedor do time estrangeiro deu outra opinião:
— Depende! Pode ser que pare no terceiro.
Com essa, o atendente baixou os olhos e mergulhou na papelada.
— Sim, os mistérios têm seus números, mesmo. Quem sabe? — Este era o vigilante da agência, um marmanjo avermelhado que pouco antes falava ao rapaz do futebol sobre saúde, ácido úrico e exercícios. No entanto, já havia se perdido a esperança de o diálogo tomar um rumo racional. O Saint-Germain (ou era Barcelona?) chutou:
— É como a moto dourada que o Raimundinho queria vender. O dono morreu numa batida e a moto não sofreu nada. Ficou para o Raimundinho negociar.
— Que foi que teve? — Indagou o loiro, tranquilo com a fila andando mais rápido.
— Um comprador da capital veio buscar, mas o carro dele virou na estrada.
Como a história ameaçava perecer, este que vos fala, escalado para ser apenas testemunha dos fatos e encaminhar discretamente uma postagem de livros, não se conteve e entrou em campo:
— E a moto, não foi vendida?
— Raimundinho desistiu de passar adiante — voltou o Saint-Germain. – Mas despertou a vontade de ser motociclista. Não naquela moto, assombrada. Resolveu ir em Feira de Santana buscar uma nova. Morreu na volta, de acidente de trânsito.  Se houvesse aceitado a dourada, tinha encaixado na posição certa. Seria o terceiro da fila. Número tem muita importância! 
O vigilante, após fazer complicados cálculos mentais, concordou com aquela súmula.
Chegou a minha vez de ser atendido. Vida que segue!

De como Romeu Raizeiro deixou de ser curandeiro



Eu vi aqueles três elementos aparecerem ao meu lado, eu deitado no meu quarto, na cama. Pareciam cachorros, dois pretos e um vermelho. As presas eram como facas afiadas, as bocas compridas de jacaré. 
Eles roeram todo o meu corpo do pescoço para baixo e levaram o resto pelo sertão adentro, atravessaram o Rio São Francisco até chegar em Sergipe. Esse caminho demorou muito no mato de noite. 
Então me jogaram no centro do terreiro de um pai de santo que eu não conhecia, e já estava tudo pronto. No chão tinha velas e duas galinhas mortas. O pai de santo mandou eu comer uma galinha, que assim eu ia ganhar todo o dinheiro aqui da cidade, dessas roças aí afora. Ia ficar rico, só teria que perder tudo três dias antes de morrer. 
Eu desconfiei daquela ideia. Disse a ele que só a Deus eu sirvo, e não comeria galinha nenhuma. O sujeito me chamou de teimoso e ordenou aos tais cachorros que me trouxessem para casa e, quando chegassem, acabassem de me matar. 
Novamente voltamos, atravessamos o rio e a mata e paramos aqui, mas não era o mesmo dia que saímos. Era a época de anos atrás, velhas estradas de barro que nunca conheci, casas antigas de palha, plantas altas que já não existem e um velhinho no meio delas, um sujeito magro, de costas, com as mãos levantadas ao céu. 
Os cachorros se diziam: “Vamos desviar do Atrapalha”. O velho ordenou que o chão se abrisse e os cães descessem pela fenda. Falou isso outra vez e a fenda abriu, mas os bichos quiseram voar, e voando mesmo estouraram como foguetes.
O santo, que era esse “Atrapalha”, me disse que eu queimasse todas as minhas coisas de curandeiro conforme me lembrasse delas. “O resto o dono virá buscar”. 
Assim aconteceu. Acordei na minha casa e, de duas vestes que encontrava, tirava só uma para queimar. De ferramentas e velas não foi tudo para o fogo, nem todas as folhas, nem todas as fitas. Dava-me pena, compreende? 
Mas no dia seguinte recebi a visita de um homem a quem eu devia, curandeiro ele também, e lhe entreguei o resto das coisas da casa, menos as imagens intocadas da devoção, de simples reza… Na mesma hora esqueci tudo. 
Eu, que sacudia das pessoas os maus ventos, tanto invocado como não, esqueci todo o preparo, esqueci os banhos, os fundamentos. De uma hora para a outra. Assim que eu parei pararam também os meus filhos de santo, e nem por pilhéria me meto hoje a curar na linha branca. 
Larguei a Linha Branca das Almas, porque havia invejosos da mão esquerda, e eles estavam de olho em mim, querendo me dominar. 
O que eu tenho hoje é isso: essas raízes, essas garrafadas que eu vendo, esse litro de mel e três livros de remédios de plantas. E a simples devoção, simples reza. Meu nome é só Romeu, não é mais “Pai”, não tem nada disso. E se precisar eu mudo de nome de novo, a qualquer hora, nem registro de nascimento vale. Porque nasci sem registro, sou antes um homem, só isso. Ou tudo isso...

Monday, July 22, 2019

Biblioteca do Paiaiá, no sertão da Bahia, terá Festa Literária Internacional de 24 a 26/7



O povoado de São José do Paiaiá, no município de Nova Soure, em pleno sertão da Bahia, sediará nos dias 24 a 26 de julho uma festa literária que reunirá escritores, professores, artistas de diversas expressões e lideranças comunitárias para debater a criação, a produção cultural e a difusão de saberes. Além disso, a II Festa Literária Internacional da Biblioteca do Paiaiá contará com atrações do Circo Premier, feira agro-ecológica e de artesanatos rurais, venda, troca e doação de livros e revistas, a Biblioteca Volante da Fundação Pedro Calmon, exposição sobre terceira idade e saúde da mulher, bumba meu boi, banda de pífanos, a Filarmônica de Nova Soure, peças de teatro, projeções de filmes e cavalgada.

Localizado na rodovia BR 110, a 231 km de Salvador, São José do Paiaiá está na rota do peregrino Antônio Conselheiro de Canudos pelos Sertões da Bahia e possui, segundo a professora Walnice Nogueira Galvão, da Universidade de São paulo, a maior biblioteca em comunidade rural do mundo , com mais de 120 mil volumes. A instituição, fundada por um ex-morador do povoado, Geraldo Moreira Prado, tem 17 anos de existência e promove com alguns parceiros toda a programação da festa.

Entre os temas na pauta de debates estão a vida cotidiana da juventude, educação no campo, cordel e aboio, histórias em quadrinhos, educação e culturas indígenas, leitura e políticas culturais nos municípios, leitura e matemática, memes didáticos e contos africanos. Também serão abordados a bioética, a ancianidade e o direito de envelhecer com dignidade.

Durante as atividades serão homenageados o escritor baiano Carlos Anísio Melhor, falecido em 1991, o trabalhador rural Luiz Saldanha dos Santos, integrante do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Nova Soure, e a yalorixá D. Durvalina, única mãe de santo da região.

Estão confirmadas as presenças do ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, do prefeito de Conceição do Coité, Francisco Assis, da líder do Assentamento Cajuba, em Nova Soure, Raimunda Maria de Jesus, dos grupos de griôs de Santa Luz, dos escritores Aleilton Fonseca, Antenor Rita Gomes, Alex Simões, Darlan Zurc, Eraldo Miranda, Fábio Bahia, Franklin Carvalho, José Erenilson, Marcelo Torres, Uarlen Becker e do Quarteto Moxotó (Arcoverde-Pe). Além de educadores de instituições universitárias federais e estaduais e de gestores de bibliotecas, o evento mobiliza na sua organização jovens de várias escolas públicas das cidades vizinhas.

Foto: site da União de Prefeitos da Bahia


Contatos

e-mail: bibliotecapaiaia1@gmail.com

fanpage: @bibliotecacomunitariadopaiaia

Tels: 75 999753903 (WhatsApp) 75 34377070

Sobre a Biblioteca do Paiaiá

https://archive.org/details/vimeo-172825635

http://bibliotecadepaiaia.blogspot.com/

https://www.redebrasilatual.com.br/cultura/2017/08/uma-miragem-real-de-livros-no-sertao-da-bahia/

Tuesday, January 15, 2019

Borbulhar de sangue e água






O livro O Borbulhar do Gênio, de Saulo Dourado (Caramurê, 2018), que remonta à convivência do jurista Ruy Barbosa com o poeta Castro Alves ao longo do Século XIX, tem o esmero de uma pesquisa biográfica apurada, mas é sacudido o tempo inteiro pelos desmaios, tosses, calafrios, amargores, entusiasmos, espasmos, enfim, pelos hálitos desses personagens de saúde frágil.
Na obra, eles ainda não são os imortais que os professores nos mostravam num pedestal. São jovens colegas de escola, revolucionários e ansiosos, imperfeitos e o tempo inteiro quase-homens. O autor, aliás, destaca o contraste entre um Ruy assoberbado pelos estudos e tímido e o poeta belo e sociável filiado à boemia. No entanto, há muito em comum entre os dois baianos: ambos abraçam apaixonadamente a causa abolicionista, e suas trajetórias se tangenciam ou se misturam em Salvador e no Recife e em São Paulo, onde moraram, cercados por uma geração de intelectuais célebres.
Surpreende saber que a narrativa foi construída em apenas dois anos, com fontes de pesquisa que incluem desde arquivos eletrônicos até autores consagrados (Luiz Viana Filho, Pedro Calmon e Jorge Amado, entre outros) e a produção legada por Ruy e por “Cecéu”. Não pelo volume de informações, pois elas poderiam constituir um resultado burocrático, como acontece em alguns livros de fundo histórico, mesmo com robustos lastros. Pelo contrário, Saulo Dourado rege as informações com um condão poético e afetivo que faz a História saltar aos nossos olhos cheia de vida.
É a vida do Seculo XIX, e o texto muitas vezes mimetiza a época, como quando diz que Recife era “uma cidade que primava pela graça e louçania”. Ao descrever uma viagem desastrada empreendida por Castro Alves, o autor sai-se com essa tirada digna das musas “… e o mar cuspira-lhe na altura de Valença . Teria caminhado até o centro da cidade, trôpego do balanço das ondas e do nado náufrago”.
Está tudo no livro, o amor entre Castro Alves e a atriz portuguesa Eugénia Câmara, a convalescença do poeta, a relação dos dois personagens com suas famílias, o prestígio de que dispunham, os atritos com as velhas gerações, as frustrações, as dificuldades econômicas e os sentimentos vastos. E volta e meia aparecem no horizonte o mar e as viagens náuticas (daí O Borbulhar de um Gênio, imagino) dos dois intelectuais, inclusive a ida de Barbosa a Paris.
Saulo é um escritor devotado ao amor. No livro de contos “O Mar e seus Descontentes” (Via Litterarum, 2016 - Novamente o mar!) abraçou com sensibilidade a história do casal Marie e Pierre Curie, cientistas dos primórdios da radioatividade, laureados com o Nobel. Ali ele enxergou a cumplicidade do casal e reescreveu suas biografias em uma curta história emocionada, sem perder de vista os desafios do laboratório que improvisaram.
Este autor, que também é conhecido por produzir histórias infantis, chega a esse primeiro romance com muita tranquilidade e traduz a morbidade e a violência dos 1800 com um olhar agudo, ao mesmo tempo transversal ao tempo. Está lá e cá, e nós também, visitando o antigo até hoje presente.
Em conversa privada, ameacei-o de indicá-lo para a cadeira de Josué Montello na Academia, quando vier a vagar. Saulo desconversou. Passando eu ou passando ele, um dia, será inevitável comparar seu novo livro a Noite sobre Alcântara e a Os Degraus do Paraíso. São criações que tratam de gente, de perdas, da mobília dispersa, de laudas em branco e de algo que se derrama tinto sobre elas.

Thursday, December 20, 2018

O golpe do falso editor e algumas meias verdades

Há cerca de um ano caí no golpe de um falso editor enquanto participava de um debate numa feira literária no exterior. O caso não teve maiores consequências, mas acabou virando anedota e deixou algumas lições. Tudo começou quando o funcionário da embaixada brasileira, que seria o mediador das discussões, recebeu a mim e ao Maurício de Almeida, participante da mesma programação, e nos apresentou a um figurão. Segundo o agente da diplomático, aquele homem teria imenso interesse em traduzir nossos livros.

A conversa foi rápida e logo adentramos o auditório para encontrar a sala cheia, o público interessado. Ao tomarmos assento, no entanto, o tal editor, sem ser convidado, meteu-se entre nós na mesa. Permaneceu ali todo o debate sem dizer uma palavra, apareceu nas fotografias e, tudo encerrado, evaporou como cânfora. O próprio agente diplomático nos deu o sinal de que havia sido enganado por aquele fanfarrão, cujo interesse não era dinheiro, apenas desfrutar de falso prestígio. O episódio ganhou alguma repercussão nos bastidores da feira, provocando risos nos envolvidos na produção, à exceção do anfitrião da embaixada, desnecessariamente mortificado.

Conto aqui esse fato para mostrar como o meio literário também respira a atmosfera do show business (There's no business like show business). Geralmente é área de ar rarefeito, mas pode carregar as virações, mormaços, redemoinhos e furacões do mundo da música, do cinema etc. Às vezes tem só uma brisa enganadora, como também acontece em outras artes. Aliás, já faz alguns meses, a imprensa levantou suspeitas sobre um prêmio literário internacional que prometia maravilhas, mas que não contava com patrocinador nem estrutura. De um lado, os jornalistas insistiam que era embuste, página de internet fraudulenta, registros falsos e outros indícios, e, do outro, os supostos charlatães alinhavando justificativas. Certo é que o prêmio não levantou voo e entrou para o folclore como um marco do nonsense.

Outra coisa que sempre me chocou e que ainda me choca aqui, ali, alhures, é perceber que esse mesmo meio literário reproduz todos os vícios da sociedade, da mesma forma que os departamentos universitários, as congregações, as santas casas, os partidos e as igrejas, enfim, os clubes de carteado. Disputas de poder acirradas, misoginia, filiações, estratificações de todos os tipos, sentimentos exacerbados e ilhas, algumas de excelência. A princípio isso me desconcertou porque eu vinha de outro sonho feliz de cidade, mas logo amigos das letras desfizeram o estranhamento revelando o óbvio: que a literatura não é feita no paraíso, nem na ilha flutuante de Gulliver.

Essa descoberta, felizmente, veio acompanhada do reconhecimento de indispensáveis gestos de solidariedade profissional, que garantem em todo lugar a sobrevivência dos artistas e do seu trabalho. Algo que nos faz ver além dos elogios, das bajulações e das incompreensões. Essa compreensão do ambiente nos fortalece também no convívio com nossos próprios estranhamentos e nossas inspirações, muitas vezes indomadas, e com as paranóias e mistificações em geral.

Em meio a essa permanente tempestade, a literatura tenta sobreviver no/ao negócio, mas mantendo sua substância. O escritor é como o Louco do Tarot, alienado a caminho do abismo, enquanto lhe gritam (ele surdo) que não se precipite. E até essa figura bizarra oferece uma imagem positiva para os cartomantes: a de um elemento introspectivo e ao  mesmo tempo arrojado, sempre pronto a encerrar tudo, sempre pronto a recomeçar.

A literatura é salto para quem escreve e susto para quem a acompanha roendo as unhas, apreensivo com cada movimento. E todos, mesmo os fanfarrões, têm os olhos rutilados de desejo por essa aventura.


Friday, July 27, 2018

Entrevista ao jornal A Tarde - Flip 2018

Publico abaixo a íntegra da entrevista que dei ao repórter Eugênio Afonso Araújo Santos, do jornal A Tarde, falando sobre a minha participação na Flip 2018. O jornal divulgou algumas respostas em matéria a respeito do evento no dia 25/5/2018. No entanto, achei a entrevista interessante também em outros pontos. 

Você participa da mesa 17, “De Malassombros”, no domingo. De que trata essa mesa? Como vai ser sua participação?


Vou discutir com a folclorista Thereza Maia, que pesquisou encantados e assombrações de Paraty e do Brasil, sobre a transmissão dessas tradições, oralmente e na literatura. Eu, com meus poucos recursos, escrevi um romance elaborado a partir dos temores e ritos em torno da morte. Continuo pesquisando essa temática porque acho que, na relação com o além, com o sagrado, nós brasileiros mantemos algumas artimanhas e fórmulas da vida cotidiana, da política etc. Quero falar, particularmente, sobre como fazer o leitor se reconhecer nessa “con-tradição”. 


. Você ainda é servidor público ou somente escritor?


Sou servidor público também, trabalhando com jornalismo e edição de textos, o que me permite lidar com duas exigências diversas da narrativa. O jornalismo é muito dinâmico, influenciado pelo dia a dia, inclusive na linguagem e abordagem dos temas. Por isso prefiro escrever ficção à mão, para que seja uma experiência radicalmente à parte, transcendental, outra interpretação do mundo.


. Esta é a primeira vez que participa da Flip?


A primeira vez foi em 2007, fui conhecer a festa e ver Amós Oz, que me interessava muito. Voltei em 2016, já como ganhador do Prêmio Sesc de Literatura, mas sem o romance editado, para participar de um encontro na Casa do Sesc com o escritor pernambucano Mário Rodrigues, que recebeu a mesma premiação, mas na categoria Contos. Em 2017 apresentei Céus e Terra num café literário também promovido pelo Sesc, debatendo com a poetisa Cida pedrosa, outra pernambucana, sobre sertão e novas literaturas.


. Qual a importância da Festa para os escritores e o público em geral dentro do cenário da literatura no país?


A Flip é uma referência para outros eventos literários e para o próprio mercado, porque ao longo da sua história se articulou para responder demandas da sociedade, como a representação das mulheres, dos autores negros e das várias tendências da literatura. À medida que uma das maiores mobilizações, que tem a participação de personalidades significativas e ampla repercussão na imprensa, traz inovações, estimula a diversidade. Além da programação oficial existem muitos eventos que ocorrem paralelamente em Paraty, organizados por instituições nacionais, jornais, editoras de vários portes, enfim, é uma praça de artes que também atrai músicos, performancers etc. 


. O que quer a sua literatura? O sertão nordestino continua presente nela?


O sertão é uma condição da alma, é dentro da gente, como já disse Guimarães Rosa. Para mim é um ritmo, espiritual e cardíaco. A respiração tem esse compasso de um monocórdio. É uma batida seca, sem excessos, mas viva. Lá na minha terra, Araci, que cito no Céus e Terra, fiz uma casa num lugar quase ermo, com quintal grande e algumas plantas. Não canso de ficar lá à noite, tudo apagado, olhando o mato e o silêncio – no sertão, dá para ver o silêncio passando, de tão denso que ele é. Vejo também a barra do horizonte e sei de onde vem o vento do mar, vem fresco. Levo algumas indagações do que estou escrevendo agora, algo sobre essa contemporaneidade desajuizada, urbana, quase uma distopia, e o sertão me aconselha, me desafoga.


. O que muda na vida de um escritor depois de ter um livro premiado?


O interessante do Prêmio Sesc é que ele coloca o vencedor no mercado editorial já pela publicação por uma grande editora, a Record. Então você entra na malha de distribuição e também é incluído na agenda de vários eventos, também graças à premiação. Isso amplia a sua percepção sobre os desafios que os artistas da área enfrentam, porque a literatura é muito inusitada, pode trazer decepções de onde se espera muito, e reconhecimento por parte de desconhecidos, de pessoas e instituições distantes. A literatura, com o perdão das más rimas, nos aproxima da amargura, mas também da cura. A inspiração, se você ainda a tem e a estimula, te fortalece para enfrentar as fortes frustações políticas, inclusive essa sandice neoconservadora e neomoralista atual. Nenhum autor está imune à crise do mercado editorial, além de outras, mas precisamos continuar criando.


. O que você acha da obra de Hilda Hilst, a homenageada da festa?


Ela era intensa na entrega, na doação, na coragem. Essa postura de procurar mover o leitor, de balançá-lo, mesmo que precisasse modificar totalmente o seu texto, mesmo que a condenassem por romper os padrões, é rara. Mesmo no tratamento de temas eróticos, embora desbocada, não abriu mão da qualidade narrativa nem da composição de personagens, principalmente isso. Acredito que o desejo mesmo era de usar todas as ferramentas, e ela as tinha, buscando interação com os leitores, sem meias palavras ou falsos pudores. Rejeitar qualquer solenidade atribuída aos escritores, aos editores. Hilda queria se comunicar com as possíveis formas de vida, até com os animais, os óvnis, e fez experiências domésticas tentando gravar sons do além. Aliás, acho que a Flip acaba refletindo o lado místico da homenageada levando escritores como o congolês Alain Mabanckou, e a russa Liudmila Petruschévskaia, que aproveitam narrativas da mitologia e da espiritualidade de suas terras nas suas obras. É um resgate desse universo simbólico, que também me interessa.


. Você acredita que há muita diferença entre a literatura que se produz no Nordeste e a do Sul e Sudeste do país?


Acho que existem algumas tendências que não são necessariamente regionais, mas algo do tipo “escolas”, ou influências. As oficinas de escrita promovidas por escritores mais conhecidos, por exemplo, a literatura que surge de comunidades periféricas e a autoficção, além de outros, formam gerações que já se consolidam. A diferença regional é o acesso à mídia, às editoras, ao chamado buzz, ou seja, à repercussão informal, das redes sociais, pois existem polos de distribuição da informação, mesmo em tempos de internet.


Tuesday, July 24, 2018

Resenha de Céus e Terra na revista Sigila



Recebi hoje de Lisboa um exemplar da Sigila, "Revista transdisciplinar luso-francesa sobre o segredo", com uma resenha sobre o meu romance Céus e Terra feita pela escritora e pianista Gilda Oswaldo Cruz, artista fantástica, brasileira, que reside em Portugal. Ela me enviou também, por e-mail, o texto, publicado em francês, e a tradução (abaixo). O link para a Sigila na internet (site ainda sem a nova edição) é http://www.sigila.msh-paris.fr/


Franklin Carvalho, Céus e terra, Rio de Janeiro, Record, 2016, 205 pages


Quem viu os filmes de Glauber Rocha se lembrará das fisionomias castigadas dos protagonistas, sertanejos expostos à rudeza da existência no interior do Nordeste brasileiro, com a sua galeria de rostos cujos traços parecem expressar uma irredutível individualidade.

É com um semelhante olhar, tão de antropólogo como de poeta, que Franklin Carvalho nos leva neste seu primeiro romance a assistir a cenas de vida e de morte entre os habitantes de Araci, pequeníssima vila do interior da Bahia, terra natal do autor.

O leitor é logo confrontado com uma frase inicial de rara contundência: “Quando eu tinha doze anos, fui ajudar a tirar um homem da cruz. Encontrei-o morto e acabei morrendo também.” E explica, mais adiante: “Cortaram-me no ano de 1974, nos fundos da fazenda Guarani, de uma lapada só de facão. Que eu servisse de exemplo a quem anda desavisado no mato. A cabeça rolou para bem perto, sem grandes invenções, uma criança miúda, mestiço de índio, na beira seca do rio do Sangue” (p.9/10)

Apesar da violência dos acontecimentos - dois assassinatos, um suicídio apenas insinuado e a enigmática desaparição de uma personagem - tudo é narrado por Galego, o menino decapitado, com uma assombrosa ausência de ênfase. Tudo ele conta uma leveza inebriante, como que denotando o seu amor fati de cunho religioso ou filosófico, o que confere ao romance uma altura inusitada nas letras brasileiras de hoje. As injustiças na vida do sertão são enunciadas pelo narrador menino com uma naturalidade não enfática que lhes presta ainda maior dramatismo.

Ceifaram-lhe a cabeça, diz o menino, “por susto”, mas o assassino arrependido terá o perdão dos seus concidadãos. Sem resquício de autopiedade, Galego relembra a sua existência de menino dado pelos pais pobres “a criar” por uma família de poderosos – trato comum no vasto interior brasileiro– que o converte numa espécie de escravo encarregado na fazenda dos trabalhos mais ásperos, e onde lhe é negado por vezes até o alimento.

A grande vantagem ficcional de ver o mundo pelo lado dos mortos, Galego logo descobre– além de “ficar sem nome, sem fome, sem horas” (p.189) –, é ver sem ser visto.

Há também a sua nova faculdade de deslocar-se velozmente pelo espaço. Com seu olhar curioso e empático, o menino sem cabeça descreve a vida e os costumes dos cidadãos de Araci, oferecendo-nos um panorama sinóptico dos seus modos de trabalhar, amar, morar, matar, comer e beber, ajudar o próximo, reeerguer a vida, suportar os males da vida, deslumbrar-se com a fugaz passagem de um circo e, com grande destaque, acreditar fortemente no sagrado com o sincretismo religioso dos sertanejos brasileiros, e não só deles. São tão efusivamente católicos na celebração da Semana Santa como devotos dos terreiros de candomblé, dos orixás e dos curadores (o autor evita o termo judicativo de curandeiro), a quem recorrem sempre em caso de necessidade.

Fresca a sua decapitação, ainda assim o menino morto precisa comer, mas só quando os vivos o fazem, sendo seu único alimento as pipocas, e também beber água, ainda pela boca dos vivos. Sua existência post-mortem obedece a um período de gestação ao invés, ao longo dos nove meses que dão título aos capítulos, e à medida que passa o tempo em contagem regressiva para a sua fusão final com o todo, ele observa o que lhe acontece:

“aí me ocorreu pela primeira vez a sensação de estar cercado de terra úmida. (…) Poderia ser mesmo que eu estivesse sendo devorado pela terra, e aquilo não me assustava em nada, nem me ameaçava. Poderia ser que o caixão barato em que me puseram, forrado apenas por um filó, tivesse se desmanchado e a minha pele fosse penetrada pela sombra debaixo de sete palmos” (p.108 e 109). “Por isso, fui me deixando sentir o toque da terra, e não era mais eu quem estava sendo absorvido por ela, mas me expandia, numa sensação deliciosa de dominar a terra que me invadia. Era como se nos uníssemos, desfazendo-nos em húmus, inumando. Então eu aumentava para ser toda a terra em cima do meu corpo. Tão satisfeito como alguém que se espreguiça dentro da maciez da polpa de um pêssego, ou de um cupuaçu, ou de uma manga, ou quem rompe o hímen das águas para pôr-se de pé num lago. “ (p.109)

Não seria apropriado aproximar ao realismo mágico este relato passado em terra sertaneja tão fértil em crenças no sobrenatural. Lá a vida é cotidianamente vivida como tendo parte contígua com o sagrado. Celebremos, sobretudo, a reinvenção poética da linguagem neste livro de Franklin Carvalho, que lhe valeu no Brasil em 2017 dois prêmios literários importantes, o do SESC e o São Paulo, na categoria romance de estreia.

Gilda Oswaldo Cruz


Franklin Carvalho, Céus e terra, Rio de Janeiro, Record, 2016, 205 pages


Ceux qui ont vu les films de Glauber Rocha se souviendront des physionomies malmenées des protagonistes, ces paysans exposés à une rude existence à l’intérieur du Nord-Est brésilien, avec une suite de visages donts les traits semblent exprimer une irréductible individualité. C’est d’un regard semblable, si anthropologique que poétique, que Franklin Carvalho nous présente tout au long de ce roman des scènes de vie et mort parmi les habitants d’Araci, une petite bourgade, qui est la ville d’origine de l’auteur, à l’intérieur de Bahia.

Le lecteur est confronté d’emblée à une phrase initiale d’un grand impact: «Quand j’avais douze ans j’ai aidé à libérer de la croix un tel homme. Je l’ai trouvé mort et j’ai fini par mourir moi-même.» Et il poursuit: «On m’a tranché en l’an 1974, au fond de la fazenda Guarani, d’un seul coup de couteau. Pour que je servisse d’exemple à quiconque marcherait insouciant dans la brousse. Ma tête roula jusqu’à tout près de là sans grandes inventions, un enfant chétif, métis d’indien, sur la rive sèche du fleuve du Sang.»(p.9/10)

Malgré la violence des événements – deux meurtres, un suicide déguisé et une disparition – tout est rapporté par Galego, l’enfant décapité, avec une surprenante absence d’emphase. Il raconte tout cela d’une griserie flottante, comme en reflétant son amor fati à empreinte religieuse ou philosophique, ce qui accorde au roman sa haute portée parmi les lettres brésilienes d’aujourd’hui. Les injustices systématiques du pays sont enoncées par l’enfant narrateur, d’un naturel non appuyé qui leur prête un fort dramatisme.

On lui a tranché la tête «dans l’effroi», mais l’assassin repenti sera pardonné par ses concitoyens. Sans un brin de commisération, Galego évoque son existence d’enfant livré par ses parents pauvres à une famille de puissants afin d’y être élevé – un règlement assez fréquent dans le vaste Brésil profond – ce qui le change en une sorte d’esclave chargé des travaux les plus ardus de la fazenda, où on lui refuse jusqu’à la nourriture.

Le grand avantage fictionnel de regarder le monde du côté des morts, Galego s’en rend compte – au delà de «demeurer sans nom, sans faim, sans horaire» (p.189) – est de voir sans être vu. Il y gagne aussi sa nouvelle faculté de se déplacer à toute vitesse dans l’espace. De son regard curieux et empathique, l’enfant sans tête décrit la vie et les moeurs des citoyens d’Araci, en nous offrant un panorama synoptique de leur façon de travailler, d’habiter, manger et boire, d’aider leur prochain, redresser leur vie, supporter les maux du quotidien, se laisser éblouir lors du passage fugace d’un cirque et, avec assez de relief, de croire vivement au sacré, dans cet esprit de syncrétisme religieux caractéristique des paysans – et pas seulement eux! – brésiliens. Ils sont si chaleureusement catholiques lors de la célébration de la Semaine Sainte que dévots des arènes de candomblé, des orixás et des guérisseurs (l’auteur esquive le terme judiciaire de sorciers).

Si sa décapitation est encore fraîche, l’enfant a toujours besoin de manger, mais uniquement quand les vivants le font, son seul aliment étant le pop-corn, et de boire de l’eau, toujours par la bouche des vivants. Son existence post-mortem obéit à une période de gestation à l’envers, au long des neuf mois qui donnent titre aux chapitres – et, à mesure que le temps s’écoule à rebours vers sa fusion finale avec le tout, il observe ce qui lui arrive: «là, la sensation m’est venue pour la première fois d’être entouré de terre humide. (…) Peut-être même que j’étais en train d’être dévoré par la terre, pourtant ça ne m’effrayait pas du tout, ni ne me menaçait. Il se peut que le cercueil bon marché où l’on m’a fourré, uniquement doublé de tulle, se soit fragmenté, et que ma peau ait été pénetrée par l’ombre, au dessous des sept empans.»(pp.108-9). «À cause de ça je me suis laissé faire juqu’à éprouver le contact de la terre, et ce n’était plus moi qui étais en train d’en être absorbé, tout en me gonflant, dans une sensation délicieuse de dominer la terre qui m’envahissait. C’était comme si on fusionnait, pour se défaire en humus, en inhumant. Alors je gonflais, pour répondre à toute la terre au-dessus de mon corps. J’étais aussi satisfait que quelqu’un qui s’étire à l’intérieur de la pulpe d’une pêche, d’un cupuaçu, ou d’une mangue, ou de quiconque rompt l’hymen des eaux pour se tenir debout dans un lac.» (p.109)

Il ne serait pas adéquat de rapprocher ce récit du réalisme magique, puisqu’il concerne la terre du sertão, si fertile en croyances au surnaturel: la réalité est déjà assez magique pour qu’elle ait besoin de dispositifs littéraires exquis. Célébrons donc surtout la réinvention poétique du langage dans ce livre de Franklin Carvalho, signalée au Brésil en 2017 par deux prix importants qui lui ont été décernés – celui du SESC, et le prix São Paulo dans la catégorie du roman débutant.

Gilda OSWALDO CRUZ