Wednesday, October 19, 2016

Novo aqui? Você não é o único



Este blog foi criado em 2003, mas passou a incluir mais posts a partir de 2008. Tornou-se, principalmente, um repositório de anotações sobre a pesquisa que eu conduzia sobre a morte no catolicismo, com vistas a um possível mestrado. Até outubro de 2016, o blog foi indexado como não localizável a partir de pesquisas no google, ou seja, esteve secreto, daí não haver adesões ou manifestações do público até então. Aqui o leitor pode encontrar anotações referentes a Antropologia, Física e Literatura, e poemas, além de outras divagações. Muita coisa é também pura anotação de campo. Bem vindo!

Tuesday, October 18, 2016

Fantasmas muito presentes







Em seu livro Fantasmas Falados – Mitos e Mortos no Campo Religioso Brasileiro (Unicamp - 1996), o antropólogo Oscar Calavia Sáez resume uma arrojada pesquisa que realizou sobre os cultos populares dedicados a falecidos (um velho negro escravizado, uma prostituta, crianças etc) que tiveram vidas ou mortes trágicas, ou as duas. Após o sepultamento, estes personagens passaram a ser procurados pelos vivos, que continuamente lhes demandam milagres e lhes fazem promessas.

Estes e outros santos não oficiais e todas as histórias em torno deles permitiram ao autor criar um perfil da religiosidade brasileira, onde existem “santos” que podem ser cultuados no altar e, às vezes ao mesmo tempo, incorporados em transes mágicos – esse duplo desempenho das entidades já vale um debate à parte no livro.

Um segundo entendimento é de que há um panteão vasto reconhecido por todos os brasileiros (Deus, Nossa Senhora, orixás, almas, espíritos de luz, caboclos, pretos velhos, exus, pombas giras, erês etc) e que as pessoas escolhem aqueles que desejam venerar sem, enfatize-se, sem descrer dos outros: “...Vimos como se pode não crer em entidades – as pombas-gira e exus do cemitério, por exemplo – de cuja existência não se tem dúvidas... Trata-se na prática de entidades independentes, que o ser vivo não pode negar, mesmo quando  pode manipulá-los ou afastar-se deles” (pg 155).

Nessa medida, as religiões são bastante elásticas, e mesmo que não o sejam, seus membros superam a teologia para alcançar os guias – e os favores - que quiserem. E um mesmo “santo” pode ser cultuado de formas “diametralmente opostas”, pelos grupos ou indivíduos que o acompanham.

No livro, que foi fruto de uma tese de mestrado pela Universidade Estadual de Campinas, Sáez reconhece também que o brasileiro tem uma relação “promíscua” (pg. 179) com o além, e usa uma figura de linguagem para descrevê-la: “o muro do cemitério caiu” - seja porque “os de ambos os lados se reconhecem como irmãos”, seja porque “todo mundo estava em cima” do muro (pg. 182).

Ora, é possível perceber a interação intensa entre vivos e o além por meio de sinais mais ou menos redundantes. Acreditamos em reencarnação de pessoas que não perderam a memória de outras vidas, e que estão por aí a executar dívidas, e também achamos que os desencarnados influenciam os acontecimentos, com suficientes objetivos e recursos. Também recorremos aos mortos (santos de todos os tipos, desnecessária a canonização) para deslindar nossos problemas. E, como já dito, não afastamos a existência de nenhuma – nenhuma – plausível entidade falecida.

Ter encontrado o Fantasmas Falados lavou minha alma (desculpem o trocadilho!) porque me remeteu a uma trajetória de pesquisa que fiz, e que Calavia Saez também percorreu, de estudo de religiões brasileiras e rituais pós-funerais. Particularmente, lembra um evento especial, quando conheci o culto a um menino sepultado no cemitério da Consolação, em São Paulo, que influenciou a redação do meu romance Céus e Terra. Neste livro, o personagem principal, o menino Galego, também se torna objeto de culto, como um santo não oficial.

Mas, mais do que isso, o autor, como outros pesquisadores brasileiros – em diversas áreas, Reginaldo Prandi, Roberto da Matta e João José Reis, para citar alguns – projeta, a partir da religiosidade, visões sobre a sociedade (violência, preconceito, estratificações) e o comportamento do cidadão médio. Esses dados muito podem trazer à literatura. Por isso, depois de ler o livro do professor Oscar, um espanhol, ficou mais fácil escrever um conto que há algumas semanas enredava, sobre o comportamento político numa cidade do interior da Brasil. Mais uma vez, olhando nossas relações com os mortos, aprendi algo sobre nossa relação entre vivos.

Para mais informações sobre Oscar Calavia Sáez, atualmente professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina, pós-doutorado, com vínculo com diversas instituições de pesquisa, clique aqui (com dados conferidos da Plataforma Lattes).

Monday, November 02, 2015

Nó na língua



Dia desses desisto de escrever com correção, pelo menos no whatsapp, onde todos estão engolindo pontos de interrogação, juntando agente e onde “tudo estar bem”. Às vezes me policio e digo: “você tem que dar o exemplo, a língua é um dos fundamentos da República”.
Certo é que quando vejo uma palavra com uma grafia diferente da que estou acostumado, questiono se estou errado e até vou ao dicionário (às vezes a falha é minha mesmo!), mas meus interlocutores parecem não se importar se redijo “quando?” e me respondem “cuando puder!”. Nenhum problema nisso, entendo as carências da sociedade e, como diria meu amigo Zezão, a recorrente legenda “a falta de políticas públicas”.
A questão é que a República Língua tem problemas maiores. Um mototaxista no interior me contou que seu irmão foi preso em setembro e solto em março. Diante de meu olhar confuso, indagou:
- Depois de setembro, vem o quê? Março ou maio? Eu não entendo essas coisas...
Outro dia, conversando com um estudante de Direito, alertei para o fato de a população pobre achar que questões criminais são resolvidas com pagamentos. Paga-se R$ 3 mil a um advogado, obtém-se um habeas corpus e o sujeito é solto. O processo, que é apenas mais um na pilha imensa do fórum, não anda e o réu primário volta à vida normal, para nunca mais errar. Para a sua família carente custou uma fortuna, mas o problema está liquidado, fez-se a Justiça, perdoou-se o pecado leve - usar uma moto desviada, dirigir embriagado etc.
Lembro da dupla Chico Buarque e Gilberto Gil perguntando “Esse pileque homérico no mundo, de que adianta ter boa vontade?”. E antes que eu decida o que fazer, o whatsapp vibra no meu bolso dizendo “O mundo vai acabar no domingo. Repasse para 12 amigos que você sobrevive”. Vou repassar.


Sala de visita, quarto de hóspedes


Já é regra de etiqueta para toda pessoa descolada: quando chegar uma visita em sua casa, é de bom tom oferecer a senha do wifi, além do tradicional copo d´água. E que a água seja gelada, pois aquela que você tira direto do filtro - e diz "É natural, melhor para a saúde" – só é natural nos hospitais e nas torneiras dos banheiros de shoppings.
Quanto às outras regras de recepção, basta ter chá e simpatia, até porque quem deve andar na linha são os visitantes. As normas para eles podem ser resumidas a uma só: não bote fogo na casa. Literalmente.
Lembro de um amigo que tomava uns porres e depois apagava no tapete da minha sala... Com um cigarro aceso. No dia seguinte, encontrávamos o corpo tombado, já rolado para os ladrilhos e o cigarro ao lado, completamente queimado. As cinzas jazendo sobre a fria lajota, graças a Deus!
Recepcionar bem é uma arte, inclusive receber as visitas dos hóspedes. Um ex-colega, que agora trabalha em outro estado, passou uns dias no meu apartamento e apareceram vários conhecidos para cumprimentá-lo. Chegou o momento em que o ambiente ficou insuportavelmente cheio, e eu acabei saindo à francesa, para procurar abrigo na casa de uma vizinha.
Já escorria pela escadaria do prédio, escondido, quando uma mão me agarrou: era o meu hóspede, querendo saber aonde ia. Não deu outra, acabamos escapando os dois juntos, deixando o apartamento – e aquela barulheira - ao Deus dará. 
Claro que existe gente mais tolerante, como um amigo que hospedou um sujeito que mal conhecia, encontrado num evento profissional. Depois de alguns dias, o homem se volta para ele e diz:
- Sua mulher é fiel mesmo, hein? Tirei a prova disso hoje.
O cara-de-pau demorou mais uns dias por ali, na paz que favorece aos bobos. Meu amigo até hoje dá risada.

Reencarnação

Se a reencarnação exist(iss)e mesmo, por que é que as almas viriam exclusivamente de vidas passadas, e nunca de vidas futuras? Será que haveria essa limitação e esse unidirecionamento temporal também no mundo espiritual? E por que haveria somente fantasmas originários do passado e nunca fantasmas do futuro?

Tuesday, February 24, 2015

Lovecraft, 1923



Sono uno che odia l'attualitá; um nemico del tempo e dello spazio, della lege e della necesssitá. Sogno um mondo di mistero gigantesco e affascinante, di splendore e terrore, nel quale non siano altri limiti se non quelli della libera immaginazione.

H.P. Lovecraft, 1923

Tuesday, January 20, 2015

Expressões artísticas de cunho popular em cemitérios brasileiros



A professora Maria Elizia Borges Brasil, da Universidade Federal de Goiás, deu uma contribuição significativa à compreensão da carga simbólica relativa à morte no Brasil com seu artigo "Expressiones Artísticas de Cuño Popular em Cementerios Brasileños", disponível na internet. Iniciando com uma abordagem mais geral sobre a arte cemiterial e o luto burguês, que envolvem altos investimentos e padrões artísticos mais tradicionais, Maria Elizia aprofunda o debate sobre expressões decorativas de sepulturas populares, cuja tônica é o improviso conduzido pelos familiares dos falecidos.
Mais do que isso, a professora detecta que os familiares empregam neste improviso, muitas vezes, materiais que sobram de obras em suas residências (azulejos e tintas etc), ou aquilo mais que aflorar do cotidiano doméstico, como flores de plástico, embalagens recicladas (vidros de café solúvel etc), vasos de cerâmica ou porcelana, e até mesmo lembranças de viagens, como miniaturas e animais de louça e de pelúcia. Também aplicam mão de obra menos qualificada: ao invés de escultores, tratam diretamente com pedreiros e artesãos. Isso tudo pode ser reconhecido nos nichos de sepulturas, muitas das quais têm formato de pequenas capelas/casas, e em ossuários.
A autora também reconhece nesta montagem uma forma de os familiares elaborarem seu luto e se reconhecerem na relação com o falecido. "A participação familiar na feitura do túmulo é uma das maneiras através das quais comprovamos a necessidade sentida pela família de elaborar melhor a perda do ser querido. As pessoas necessitam de aproximar-se dos túmulos, criar um ambiente íntimo e de recolhimento, para que possam exercitar o ato de devoção, fazer-lhes visitas e embelezá-los com flores" [tradução nossa].
Outros dois aspectos nos chamam a atenção: um deles, mencionado pela autora, é a renovação periódica destes ambientes, principalmente nos dias de finados. De nossa parte, salientamos que, em alguns casos, a construção da sepultura pode levar tempo, seja porque a família precisa contratar os serviços de pedreiros, encomendar lápides, transportar materiais etc, seja porque o funeral gerou despesas que precisam ser superadas pelo orçamento familiar antes da formatação da sepultura – o que, em alguma escala, sempre demanda recursos. Esse tempo de espera também se integra, acreditamos, ao ritual de elaboração do luto citado pela professora.