Monday, May 15, 2017

A Festa do Boi Roubado e o Século XXI da caatinga




Comparecer à Festa do Boi Roubado, no distante povoado. Visualizar dali as luzes que piscam de outros e outros agrupamentos, todos de casas minúsculas, como pequenos bairros pobres que tramam uma metrópole dentro da caatinga. Sentir o cheiro da terra molhada pela chuva e de fumaça de gasolina. Observar os meninos bêbados que voam de roça a roça, três por motocicleta, cortando o escuro de caminhos enlameados, rentes às cercas de arame farpado. Saber dos crimes de tráfico e de sangue no meio do mato e testemunhar a resignada mansidão das mães pobres.

Ouvir os amigos falando do sofrimento de um jabuti quando é esfolado vivo para ceder sua carne mínima ao paladar humano. Ser informado de que o jabuti se reproduz às pencas e, esperto, migra para outro mundo quando vêm as tempestades.

Acordar numa madrugada e ver os porcos e carneiros nus de pelos, postos sobre as bancas do mercado da cidade antes que os açougueiros os retalhem. Escutar no rádio uma música de 1970: “Nesta cidade todos têm felicidade. Eu só quero é lhe ver para nunca mais chorar”. Tomar café na Branca do mercado e ouvir também no rádio, mais uma vez e todo dia, um locutor pedindo a volta da ditadura.

Desejar a tempestade para todos os jabutis.

Lembrar do carro velho que nos levou para a festa no povoado, os amigos em silêncio singrando a pista de barro, a chuva no vidro. Dos jovens perto da fogueira, dez por família, todos com apelido de Inho. Recordar das corujas piscando assim que se fez estio.

Acordar de madrugada novamente e ver a revoada dos veludos na praça, em bandos como andorinhas. Cumprimentar o plantonista da funerária, que deixa a loja quando o dia clareia. Aborrecer-me com a fachada cínica do Banco do Aposentado. Ver a fila insone na sede da Assistência Social e o retorno dos esmoleres na praça, e pobres com medo de que o mundo mude. Encontrar já no sol da feira o velho João que xinga e ri, nossa, como ele ri resmungando da saúde.

Falar, com as lavradoras rurais no seu sindicato, contra os programas da TV assassinos ao fim da tarde e o destempero machista dos homens enciumados. Contar para a mãe que Machado, o melhor dos sanfoneiros, teve alta do hospital. Rir com ela. Rir em profundas confidências místicas com Almerinda, rezadeira nonagenária. Sobreviver aos anos 1970 de 2017.

Desejar a tempestade para todos os jabutis.


*Abraços para Mirian Carvalho, que me levou para a festa do Boi Roubado, no povoado do Pau de Rato, em Araci-BA, e para Gilma Reis, que me convidou para a palestra sobre Saúde Mental, do Coletivo de Mulheres no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, na mesma cidade.

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