Semana
Santa em Araci: fé, morte e ressurreição
Franklin Carvalho
Os ritos
da Semana-Santa estendem-se do Domingo de Ramos até o domingo seguinte, de
Páscoa. Há, no entanto um período de preparação espiritual, chamado de Quaresma,
que por sua vez tem início na Quarta-Feira de Cinzas. A Quaresma é marcada pela
prática de jejum e penitência, além de vias sacras realizadas às sextas-feiras
e liturgias especiais nas missas.
1) As
vias sacras são procissões que reproduzem o julgamento de Jesus, a caminhada em
direção ao calvário e o sepultamento, com paradas em catorze pontos chamados estações.
Elas são realizadas na zona urbana, entre a pequena capela (Capelinha) e a
igreja, na praça principal (Praça Nossa Senhora da Conceição). Podem ocorrer
também da capela do Bonfim (Alto do Bonfim, localidade a aproximadamente 5 Km do centro da cidade) para
a Igreja, passando pela Capelinha ou não. Quanto ao horário, acontecem às
quartas e sextas-feiras, de dia, logo cedo ou no fim da tarde, quando o
percurso envolve o Bonfim, ou à noite, quando vai da Capelinha para a igreja.
2) O
Domingo de Ramos representa a abertura da Semana Santa e é, paradoxalmente, com
relação aos dias dolorosos que se seguirão, um momento festivo. Isso ocorre
primeiro por causa das folhas verdes trazidas pelos fiéis, principalmente
galhos de palmeiras (Attalea oleifera - pindoba), para serem bentos
durante a procissão. Como já se sabe, a celebração faz referência à entrada de
Jesus em Jerusalém, montado num burrico, e à recepção calorosa que teve naquela
cidade. O colorido das folhas faz a diferença na liturgia, que inicia na igreja
e conclui com o desfile pelo centro da cidade, geralmente numa manhã
ensolarada. Ainda a respeito desta solenidade, é costume guardar-se a palha,
mesmo seca, para usá-la em situações de mau tempo. Caso caia um temporal,
conta-se, basta arremessá-la para fora de casa para aclamar a chuva ou
trovoada. A palha benta é geralmente afixada com prego atrás da porta principal
das casas, protegendo-as contra qualquer mal que queira adentrá-las.
3) A
movimentação de fiéis é grande também na Quarta-Feira Santa, na Procissão do
Encontro, que representa o momento em que Nossa Senhora
avista Jesus durante a sua caminhada em direção ao Calvário. A cerimônia ocorre
à noite. As mulheres da cidade saem da Igreja ou da Capelinha em procissão,
entoando cânticos, carregando a imagem de Nossa Senhora das Dores, e seguem em
direção à praça principal. Simultaneamente, os homens saem de outro ponto da
cidade (pode ser a Capelinha ou a casa de um membro da igreja) carregando a
imagem de Nosso Senhor dos Passos (Jesus em posição de queda, com a cruz às
costas), também entoando hinos. Os dois grupos se encontram em frente à igreja,
onde as imagens, ambas em tamanho natural, vestidas de roxo e carregadas em andores
de madeira, são contrapostas, como num encontro de duas pessoas. As imagens são
levadas em seguida para o interior da igreja e os fiéis se dispersam.
4) Na quinta-feira,
por volta das 18 horas, acontece a Missa do Lava-Pés, com representação da Santa-Ceia,
onde o padre faz o papel de Jesus e lava os pés de 12 homens, os quais trajam túnicas, figurando como os 12
apóstolos. Encerrada a missa, os fiéis
se dispersam e grupos de homens seguem para o Bonfim, portando copos de papel
com velas (fogaréus), a fim de participarem da Procissão do Fogaréu, cerimônia
que rememora a prisão de Jesus no Horto das Oliveiras. Enquanto isso, as
mulheres oram na igreja. No Bonfim, os homens fazem uma breve oração e voltam, caminhando
em filas com as velas acesas, marcando um trajeto de luz nas costas do morro,
enquanto entoam hinos dolorosos. Ao chegar à cidade, avançam pelas ruas mais
próximas da praça e depois seguem para a Igreja, onde o evento se encerra com
uma bênção do padre. Recentemente, o costume tem mudado com a participação de
mulheres, primeiro clandestinamente, depois com a provação da igreja. Outra
alteração é no ponto de partida da procissão, que passou a sair da igreja,
imediatamente após a missa do começo da noite. Neste caso, um único grupo vai e
retorna, com as velas acesas todo o tempo.
5) Na
sexta-feira, as famílias jejuam pela manhã e se banqueteiam com caruru, vatapá,
bacalhau e vinho no almoço. Neste dia faziam-se visitas e celebrações no
cemitério, costume quase abolido, e peregrinações ao Bonfim, em grupos de fiéis
ou por iniciativas isoladas, o que continua ocorrendo. As pessoas acendem velas
ou colocam pedras em torno ou nos braços das 14 cruzes que representam as
estações ao longo do morro ou na própria capela, no alto. O costume do banquete
e do vinho permanece, embora um padre (Padre Márcio) tenha solicitado a
transferência deste almoço para o Domingo de Páscoa e mesmo a sua supressão,
por penitência. Ainda na sexta-feira, ao pôr-do-sol, é feita a Procissão da Paixão,
na forma de uma via sacra, nas ruas próximas à praça. Uma mulher interpreta Verônica
abrindo, nas estações, o manto onde se estampa o rosto de Cristo ensangüentado,
imitando o Santo Sudário. A cada parada,
ela sobe em um banco carregado por um ajudante e canta “Ouvi todos que passais
a caminho do labor, atendei, vêde se há dor igual à minha dor”. A melodia é
entoada em voz agudíssima, chorosa, à luz do crepúsculo. Verônica é o
personagem essencial desta solenidade, embora haja também voluntários
representando Nossa Senhora, João Apóstolo e outras figuras da Paixão. Seguem-nos
o esquife com o Senhor-Morto, que está descoberto e é segurado por seis homens,
como um caixão em féretro, e um andor com a imagem de Nossa Senhora das Dores
(vestida em manto roxo). Após a procissão, somente o padre, seus acólitos e os
carregadores das imagens entram na igreja. Eles arrumam estas imagens e pouco
depois abrem as portas para que o povo em fila venha beijá-las. Começa aí a
vigília, ritual doloroso de veneração ao corpo do Cristo finalmente morto. Os cânticos, inclusive o Ofício da Imaculada
Conceição e o Ofício da Paixão, avançam até as 2 horas da manhã, e quanto mais
tarde fica, mais triste é a vigília. Recentemente, a vigília foi sendo
reduzida, encerrando-se à meia-noite.
6) No Sábado
de Aleluia, pela tarde, acontecia uma via-sacra. Como se concebe que Cristo
está morto, não se pode tocar o sino. Apenas a matraca (placa de madeira com
pedaço de ferro que se debate ao ser balançado, provocando um som de
ra-tá-tá-tá), convoca os fiéis para a procissão pelas ruas. Recentemente, este
evento foi transferido para a tarde da sexta-feira. À noite, acontece a Missa
de Ressurreição, de Páscoa ou de Aleluia. A celebração começa na entrada da
igreja, com o acendimento de uma grande vela, chamada círio ou brandão, pelo
sacerdote. Esta vela acende outras que são trazidas pelos fiéis e o fogo vai se
propagando de pessoa para pessoa. Assim que todas as velas estejam acesas, a
comunidade entra no templo e a missa começa.
Em seguida, acendem-se as luzes e apagam-se as velas. Antigamente a
missa acontecia à zero hora de sábado para domingo. Atualmente, a missa inicia
às 20 horas de sábado, encerrando-se por volta da meia-noite ou um pouco mais
tarde, com procissão no final. Esta
missa da ressurreição e esta procissão são as que contam com menos pessoas na
programação da semana. No caso da procissão, é a que tem menor trajeto,
resumindo-se à praça, enquanto outras abraçam ao menos as ruas adjacentes (As
vias-sacras e a procissão da paixão são, pela ordem, as maiores em trajeto). Na
noite de sábado pode acontecer a queima de Judas por iniciativa de populares.
Observações:
1) Na vigília
do Cristo-Morto (sexta-feira), o “corpo” (imagem), que tem tamanho natural e
está deitado sobre um esquife colocado próximo ao altar da igreja, é beijada e
tocado. O mesmo acontece com o véu finíssimo de tecido roxo que o envolve, seja
cobrindo-o ou apenas amparando a imagem, a depender de cada ano. Fiéis alisam o
corpo marcado com os estigmas de tortura, ajoelham-se ao lado dele, beijam-no,
oram, olham-no com atenção e muito sentimento e colocam suas crianças, mesmo
bebês, para tocarem a peça. Cadáver, a estátua é imóvel, como qualquer defunto.
2) Ainda
na noite da sexta-feira, as imagens do Cristo Morto e de N. SSA das Dores estão
colocadas em lados opostos do altar, cada uma ladeada por uma caixa para
ofertório. Alguns fiéis dividem a sua contribuição para contemplar cada um dos santos,
uma parte para Cristo, outra para Maria. A sexta-feira era marcada pela
presença de pessoas que trajavam preto em sinal de luto pela morte de Jesus,
costume que vem arrefecendo.
3) Se a
ressurreição diz que o crucificado é deus, como explica o cardeal da Bahia, é a
morte que o identifica como humano[1].
Talvez por isso, o ritual do funeral do Messias, na Sexta da Paixão, é muito
mais catártico e mais cercado de tabus[2]
e mais freqüentado do que a Missa de Páscoa. Essa última, relativa à
ressurreição, tem uma tendência a reproduzir a Missa do Galo, da madrugada do
Natal. Poderia se dizer que, na sexta, Cristo morre para toda a comunidade, que
acorre à Igreja ou participa de uma
longa procissão do esquife e do sudário
pelas praças, e no domingo ele ressuscita somente para o templo, que está
escuro no começo da cerimônia e cujas luzes são ligadas para sugerir a
iluminação do mundo. Acredito que os fiéis acorrem à procissão da paixão como
um momento de crise em que precisam intervir, como o adoecimento de um parente
que precisa de socorro ou um funeral de alguém próximo, mais propriamente
dizendo. Por outro lado, faltam à procissão da ressurreição porque esta, assim
como a superação de uma doença, será informada através de outros.
4) O
“Cordeiro de Deus” (ou o corpo de Cristo),
sacrificado e servido na comunhão, é visto como carne de Deus, pão que
se transforma em corpo ou matéria de Deus, não corpo humano de Cristo. A
eucaristia é a morte de Cristo reiterada a cada missa e, em seguida, a sua ressurreição.
A hóstia é inerte como um cadáver, mas o espírito vivifica o pão. A vida entra
e sai.
5) Na Paixão
católica, Cristo morre “por nossos pecados”, não somente para redimi-los, mas
por causa deles. Não somente para nos beneficiar, mas por nossa culpa, conforme
demonstra a liturgia, especialmente alguns cânticos:
“De
quanto sofrestes, fui eu causador, por estas torturas, perdoai Senhor”
“Por
vossa angústia, prece e suor, cálice do horto, perdoai Senhor”
“Pelas
bofetadas, com que em seu furor, vos ferem no rosto, perdoai Senhor”
(Perdão
meu Jesus, Anônimo)
“Este
coração ingrato e traidor é tão desleal ao meu Redentor...
Ao meu
Redentor, que para nos salvar, no lenho da cruz deixou-se cravar...
Deixou-se
cravar entre dois ladrões, para satisfazer por nossas paixões”
(A Nossa
senhora da Piedade, Anônimo)
6) O
rito anual da Paixão, reproduzido em pequena escala nas missas cotidianas, familiariza
a comunidade com a morte, incorporando-a à rotina das pessoas, como a morte de
Cristo se insere na rotina do calendário anual.
Todo morto refaz a trajetória do Messias (Cristo Morto), e voltará com
ele, até porque é velado e sepultado com o sinal da cruz. A cruz é símbolo de
sacrifício. Quando colocada sobre o túmulo do fiel, iguala a sua morte ao
sacrifício de Deus, sendo essa perda, por mais banal, também uma oblação pelo
perdão dos pecados.
7) Todas
as mortes, como a morte de Cristo, são vistas como eventos não-definitivos. O morto comum, como Jesus, passará do profano
(vivo) para o sagrado (transcendental), e a idéia de que ele possa ressuscitar
também como o Cristo, funda a cosmologia católica[3].
Essa cosmologia mantém uma relação de inter-colaboração dos vivos com as almas
dos mortos por meio de um instituto conhecido como Comunhão dos Santos, onde
todos se beneficiam pelo mérito do conjunto de fiéis. A idéia de “alma” tem a
ver com uma alteridade sagrada, da pessoa já falecida[4].
Não se trata somente de resgatar o passado, o morto e a lembrança do que ele
foi, mas projetar uma retomada. Ao invés de encerrar a trajetória existencial
do falecido, manter-se permanentemente no limite (liminaridade) vivos-mortos/profano-sagrado,
até o juízo final.
7) Uma
informante de 90 anos, católica praticante, relata que possui um cordão com 365
nós que ela foi fechando ao longo de um ano, enquanto rezava, um Pai-Nosso para
cada nó, para cada dia. O cordão será atado à sua cintura quando morrer, como
demonstração de penitência. Como ela confeccionou, em outros anos, outros
cordões, acabou presenteando os filhos com os sobressalentes. Guarda também
mortalha e camisola de madrasto para seu sepultamento. Tímida, ela fecha a porta da rua para me mostrar
as peças. Ficamos na penumbra, examinando as vestes. Disse que só ora por seus
mortos na igreja. Sabe que não deve orar por eles em casa (um informante no
cemitério me havia dito a mesma coisa). A senhora de idade diz ter ouvido isso
de um padre da ordem dos Capuchinhos, há muitos anos. Ela também cita a oração
“Sonho de Nossa Senhora”[5],
a qual diz ter sido lhe repassada pelo mesmo sacerdote, e que hoje ela não
lembra mais. Segundo recorda, quem orar a dita oração será avisado de sua própria
morte com antecedência de três dias, havendo tempo para se confessar.
Araci, 22/5/2012 (revisto em 26/11/2014)
[1] AGNELO, Dom Geraldo Magela,
Universalismo Cristão, artigo no Jornal A Tarde, Coluna Opinião, 24.8.2008, pg.
3. RODRIGUES, José Carlos, Tabu da Morte, Editora Fiocruz, 2ª Edição Revisada,
Rio de Janeiro, 2006, pg. 18.
[2] Segundo uma informante de 90 anos,
em Araci, fiéis mortos na sexta-feira da paixão não eram sepultados naquele
dia, reservado exclusivamente para as exéquias de Cristo, devendo aguardar até
o sábado de aleluia. A sexta da paixão também está cercada de mitos
relacionados ao aparecimento de fantasmas, licantropia, etc
[3] Sobre as categorias do sagrado e
do profano, transcrevemos Durkheim (1989): “ Todas as crenças religiosas
conhecidas, sejam elas simples ou complexas, apresentam um mesmo caráter comum:
...A divisão do mundo em dois domínios, compreendendo, um tudo o que é sagrado,
outro tudo o que é profano” (p. 68)...A coisa sagrada é, por excelência, aquela
que o profano não deve, não pode impunemente tocar. Certamente, essa interdição
não poderia desenvolver-se a ponto de tornar impossível toda comunicação entre
os dois mundos; porque se o profano não pudesse de nenhuma forma entrar em
relação com o sagrado, este não serviria para nada” (p. 72) (Durkheim, Emile,
As Formas Elementares da Vida religiosa, São Paulo, Ed. Paulinas, 1989,
[4]
Como
assinalou-nos um informante, no cemitério de Araci, na Sexta-Feira da paixão:
“eu rezo por meu irmão onde ele está e, lá, ele pede por mim aqui onde estou”,
ou ainda, como se lê no Ofício das Almas [4],
“Pede a Deus por mim que rogarei a Deus por vós, pois vós fostes como nós e nós
seremos como vós”.
[5] Encontrei referências na internet (Pan-Hispanic Ballad Project - http://depts.washington.edu/hisprom/optional/balladaction.php?igrh=0702) de uma tradição açoriana:
0702:1 La Virgen sueña la Pasión (8+8 estróf.)
(ficha nº: 2788)
Versión de Açores s. l. (Açores, Portugal). Recogida por Theóphilo Braga, antes de 1869. (Colec.: Braga, T.). Publicada en Braga 1982, Cantos, 66. Reeditada en Costa Fontes 1997b, Índice Temático (© HSA: HSMS), p. 259, U12. 026 hemist. Música no registrada.
Versión de Açores s. l. (Açores, Portugal). Recogida por Theóphilo Braga, antes de 1869. (Colec.: Braga, T.). Publicada en Braga 1982, Cantos, 66. Reeditada en Costa Fontes 1997b, Índice Temático (© HSA: HSMS), p. 259, U12. 026 hemist. Música no registrada.
Senhora Santa Maria, seu cabelo de ouro fino.
2
Perguntou seu bento filho se velava ou dormia.
Respondeu Nossa Senhora: --Filho, perguntas se
velo?
4
eu não velo e não durmo, pela vossa vinda espero.
Sonhei esta noite um sonho, mais valera não
sonhá-lo:
6
que o meu filho era morto, numa cruz crucificado;
seus sagrados pés e mãos numa cruz estão
pregados;
8
a sua sagrada boca cheia de fel e vinagre.
--Calai-vos, oh minha mãe, Senhora Santa Maria!
10
Não valera não sonhar, que isso verdade seria!--
Quem esta oração souber, quando este mundo
largar,
12
as portas do céu abertas de par em par achará,
pelas portas do inferno, nunca por lá passará.
Há versões mais recentes difundidas
(http://sentinelanoescuro.com/2011/11/02/o-sonho-de-nossa-senhora-na-espiritualidade-popular/):
O Sonho de Nossa Senhora: Estando Nossa Senhora / Com seu livro d’ouro na mão /
Meio lido, meio rezado, / Chegou seu filho Jesus. / - Mãe minha, / Que fazeis
aqui? / - Eu nem durmo nem rezo; / Esta noite sonhei um sonho, / Cruel Sonho!,
/ Vi-vos amarrar com rigorosas cordas, / Vi-vos prender com rigorosas correias.
/ Mãe minha, / Tudo quanto vós dizeis / É uma pura verdade. / Quem esta oração
disser / Três vezes ao dia / De má morte não morrerá, / O inferno não verá, /
Três [dias] antes da sua morte / Minha mãe Maria Santíssima lhe aparecerá: / -
Filha minha, / confessa os teus pecados / a meu filho Jesus. / Estão perdoados.
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