Thursday, August 31, 2017

Sobre as vozes em A Oração do Carrasco




Não são poucos os elogios que A Oração do Carrasco (Editora Mondrongo, 164 páginas), o mais novo livro de contos de Itamar Vieira Junior vem recebendo, e quem lê a obra entende, desde a primeira das sete narrativas que a compõem, o porquê dessa recepção. São histórias contundentes sobre personagens socialmente invisíveis mas fortes, contadas por um autor que tem o domínio dos menores detalhes, o que lhe permite emular diferentes vozes, todas em situações extremas e ao mesmo tempo – e talvez por isso – eloquentes.

Com esses recursos, Itamar se dispõe a cambiar, num mesmo conto, o foco narrativo para integrar novos pontos de vista. Ao contrário de certos experimentalismos que usam essa estratégia apenas como mais uma alternativa formal, a mudança aqui constitui enquadramentos autônomos e suficientes, com resultado convincente.

Por falar em eloquência, a dicção é enfática principalmente nos contos Alma, que trata da fuga de uma escravizada, A Oração do Carrasco, descrevendo o árido coração de um verdugo, e Manto da Apresentação, no qual acessa a alma do artista/interno de hospício Bispo do Rosário. Neste último, aproxima-se do ritualístico, de um tom mágico.

É uma carga tamanha de poesia que às vezes tememos chegar a uma fruição puramente abstrata. No entanto, o movimento do autor é outro, para uma concretude muitas vezes cruel, para fora de casa, quase sempre falando de gente que foge de casa. Esse é o caso da empregada doméstica de Doramar e a Odisseia, que perambula pelas ruas tentando esquecer difíceis vivências que teve entre quatro paredes (o que é uma odisseia senão abandonar a segurança, para o bem e para o mal, de um lar?). No conto Meu Mar, uma senegalesa migra para o Brasil escondida num contêiner de navio e aqui continuará para sempre desterrada. Em Alma, como já dito, é uma mulher que foge do cativeiro com todas as ânsias por mínimas realizações. Até mesmo o carrasco do conto-título tem uma vida que não se conecta, não pode se conectar com a sua família, a não ser na violência – a crueldade contra galinhas – no quintal da residência que ela habita.

Em A Floresta do Adeus, a voz reverbera entre vários narradores, homens e mulheres separados por uma fronteira policiada por guardas armados. Sentimos o que passa pela cabeça de todos, a vontade de avançar para o outro lado do marco divisório, mas também para o corpo da pessoa amada, para a juventude e a vitalidade que o outro expressa, para a liberdade que, afinal, também é potência de cada indivíduo. No Manto da Apresentação, que traz outra situação de encarceramento, a voz na cabeça de Bispo do Rosário projeta nova forma de expansão, no espaço, no tempo e na redenção, e seria somente voz, no risco abstrato que mencionei, não se constituísse num roteiro para a elaboração das peças místicas que o artista fez com linha, agulha e tecido.

As opções feitas por Itamar, ao tempo em que lançam luz sobre personagens que desafiam o alijamento, também nos permitem encontros com o comum do mundo, com pessoas que poderiam ser considerados ainda mais irrelevantes na estratificação social. A empregada doméstica Doramar recorda-se de uma velhinha, vizinha de infância “...dona Santa, pequenina e encurvada, cabeça branca e pele negra, vestida de branco e a morar numa casinha no outro lado da rua…. Não lembrava ao certo de quando partiu… de quando viu sua casa fechar para nunca mais abrir. Casa sem eira nem beira, o telhado de limo velho e o pé fino de carambola a resistir em seu quintal” (p.130/131). Em Meu Mar, a imigrante senegalesa encontra vida e solidariedade numa camelô haitiana e num pescador que é quase paisagem de tão anônimo.

É interessante ainda a capacidade do escritor de interpretar – o autor como ator de diversos monólogos – os personagens femininos com as nuances de suas transformações físicas, gravidezes e velhices. Também o poder de encadear todos os elementos para conduzir ao clímax, como no A Oração do Carrasco, em que os fantasmas das vítimas do personagem principal lhe aparecem e “uns seguram o candeeiro para que ele tivesse as mãos livres para afastar a madeira queimada… Outros o alimentavam com matéria morta…” (p.86) e a voz do prisioneiro rompe “o som da madeira que queimava ao redor da prisão” (p.89). Ainda em relação ao carrasco, o desconforto é explícito no seu quintal, onde “Dois cães raquíticos disputam a cabeça da galinha abandonada ao chão” (p. 72) e a poesia atravessa a cena na forma de um filho já é falecido, apenas alma, como dito na trama, mas que reage aos diversos fatos.

Este é A Oração do Carrasco, de Itamar Vieira Júnior, autor de Dias (Caramurê, 2012), que na sua segunda obra obteve apoio do Fundo de Cultura do Estado da Bahia. Alvíssaras, alafia! Comemoremos este mestre griô de prosa abundante e promissora.


Tuesday, August 15, 2017

As sombras no caminho


O caminhante que passa pelas estradas seguindo os rumos do sertão tem hoje a velocidade do automóvel e a companhia do telefone ao bolso. No entanto, já houve tempos de imenso pavor, quando nossos avós andavam a pé e as estradas davam susto em quem passava só.
Meu compadre Lula Desdentado jura ter visto o diabo num galho de árvore, e era meio-dia apenas. “O que ele lhe disse, Lula?” Eu perguntei. “Nada. Piou, virou pássaro, voou”
E sempre havia as almas nas trilhas das fontes, dos lagos, das águas, algumas delas já conhecidas das mulheres. Bastava uma dona se desgarrar e esquecer as orações e elas vinham atalhá-la. Nos caminhos das inúmeras capelas era também comum o cristão ser apelado, indo ou vindo da oração. Parecia sede o que as almas sentiam, ao que se dizia, que se lhes dedicassem prece.
Dia desses, era de tarde, eu vinha da Barragem e me lembrei dessas histórias. Eu senti uma friagem, um medo de ser roubado ou de bicho e amarelei, um papel velho. Sim, eu vinha só e sem reza, e o sol sumia nublado. Porém, devoto do Pobre Lázaro, confiei. Surgiu um cachorro enorme, que não sei de onde veio, e calado e manso me seguiu até a cidade, e sumiu no mesmo mistério. Meia légua durou aquilo, eu crendo que o cão queria um osso mas o carente era eu.
E houve sustos piores. Uma moça que conheci, Vera, hoje falecida, contava que em hora escura, passando por casa antiga, viu a porta de duas folhas fechada e uma cabeça aparecendo onde as folhas se juntavam. Ela, muito corajosa, enfrentou a assombração, morto dela aparentado: “Esconjuro, Adroaldo, deixe de patacoada!”
Já o avô de Ubirajara, que mora no João Vieira, certa vez teve visagem de gelar. Seguia ele madrugada, pela estrada estreita que o levava a uma urgência, quando assomou à distância um homem todo de preto, de pé, abraçado a um caixão. O avô, me falou Ubirajara, orou o credo dentro de si e, passando pelo danado, deu boa noite como se um vivo visse. Recebeu igual resposta assim educada, e ninguém morreu de medo.
Porém aqui o que mais assusta, a qualquer hora, é o silêncio, as picadas e os estalos da caatinga, o pio de ave agourenta, os leitos de cascalho seco sem vida. Não tanto as cruzes na estrada, os cemitérios de um só muro, os casebres em ruínas, as peças de roupas, as canecas e panelas amassadas e esquecidas por famílias que partiram, embora isso também.
Outras vezes, se foram assombrações nem saberemos de fato. Aquela baraúna, árvore imensa que nunca foi derrubada, mesmo com a estrada alargada à volta dela, aquela em frente à fazenda Guarani, é à noite assustadora. Tudo por quê?
Sempre foi passagem de funerais, de saimentos, de irmãos que carregavam outros para sepultamentos e ali paravam para repousar os ossos. Naquele instante, enrolados, os defuntos se alongavam também na grama. Por esse tanto a baraúna ficou falada, como toda árvore já é dita sombra de miasmas, mas aquela ainda mais.
Ali perto, uma vez o velho Nizo e o Zuza seu compadre passavam à noite e cruzaram com mulher toda de branco. Parecia ela viva, e levava um bebê embalado. Mais à frente, os camaradas comentaram:
— Você viu, compadre?
— Vi. Acho que o marido vem aí de frente.
Até hoje não apareceu marido, e se sabe que mulher não saía só àquela hora. Mulher era não.
Por último, o Oliveira irmão de Nizo viveu outra presepada, pois da baraúna até a cidade lhe acompanhou o som de um pandeiro tum-tum-tum. Digam-me se não foi merecido, sabem quando ele andou desprevenido? Noite alta, Sexta-Feira da Paixão.
Por que não dorme a gente da nossa terra? Por que nunca se aquieta?

Franklin Carvalho, com gravura de Marcelo Grassman

Friday, July 21, 2017

Encontro da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais


Pronunciamento durante o VIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais - ABEC - Florianópolis, 19 de julho de 2017 – 16h50 min







Prezados,

Minha intenção aqui é resumir a trajetória da composição do meu livro Céus e Terra, que foi lançado em novembro de 2016 e que foi editado justamente por ter ganho o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Nacional do Comércio daquele ano na categoria Romance.

O Prêmio SESC recebe para análise originais que estão cobertos por pseudônimos, ou seja, os candidatos à premiação não são conhecidos da comissão julgadora até a divulgação do resultado. Na edição de 2016 foram recebidas 794 candidaturas somente na categoria Romance e isso é muito relevante porque atesta mais uma vez a validade do certame. Além disso o fato é significativo para nós por ser vencedor uma obra cuja temática está enredada na pauta do presente encontro.

Para ser mais claro, devo apresentar-lhes o que chamo de “A carne do livro”, ou seja, a história que ele narra. Céus e Terra fala de um menino pobre do sertão baiano apelidado de Galego, órfão, pobre, sem instrução e mesmo sem educação religiosa, serviçal de uma fazenda, que é convocado para ajudar a salvar um homem crucificado. Os dois acabam morrendo logo na primeira página. Galego sequer seria enterrado num cemitério (teria sepultura na fazenda em que tombou) não fosse o fato de ter morrido junto com um adulto. Após a inumação, e sem ter noção do lugar para onde deve ir, o garoto de 12 anos vaga como uma espécie de fantasma, sem sentir dor por seu próprio falecimento, e passa a acompanhar a rotina da pequena cidade onde vivia. Aos poucos, ele passa a compreender os símbolos, medos e tradições locais em torno da morte, enquanto procura montar um roteiro de transcendência.

Para mim, o Prêmio Sesc trouxe dupla felicidade, tanto por contemplar a literatura ficcional quanto por, de certa forma, reconhecer a pesquisa que eu vinha realizando, e que mais à frente devo detalhar.

Não é mistério que os mais criativos escritores podem elaborar suas obras a partir de episódios reais. De fato, algumas mortes, como a de meu pai e de amigos na infância influenciaram toda a minha biografia. De fato, passei a minha juventude intrigado com a temática da morte e seus símbolos, caixões e cemitérios, às vezes com algum susto, às vezes somente com estranhamento, mas também com alumbramento estético.

Em certa etapa eu, que sou jornalista, resolvi encetar o projeto de fazer um mestrado em Antropologia e me meti a estudar o assunto que mais me amedrontava e fascinava, a morte. Antes mesmo da seleção e para propor um projeto de estudo consistente, comecei a bater-me com a literatura citada comumente como referência, como é o caso de Phillippe Ariés, de certa forma contestado entre os antropólogos. Também segui por Kubler-Ross, Jean Ziegler, Juana Elbéin dos Santos (Os Iorubás e a Morte), Edgar Morin, João José Reis, Roberto da Matta e Maria Aparecida Vilaça (Fazendo corpos, a morte entre os índios, inclusive a antropofagia), entre diversas fontes, além daquelas do instrumental teórico da disciplina antropológica.

Também, como referencial de campo, acompanhei durante meses o Apostolado das Almas, grupo de leigos, e a Pastoral da Esperança, equipe de diáconos católicos, que atuam em sessões de oração e celebrações (encomendações, no caso dos diáconos) no Cemitério do Campo Santo em Salvador.

Ao fim de 2008, no entanto, eu já tinha convertido o meu propósito para a redação de um romance que abrangesse o que eu capturei nas pesquisas, inclusive ouvindo fontes em diversas cidades e visitas a outros cemitérios, e também elementos de minha trajetória pessoal, embora não o quisesse autobiográfico. Busquei a partir daí uma solução poética, não mais científica, para os desafios que o tema da morte impõe. E para citar o tamanho do desafio, coloco aqui o que inferi a partir da leitura do livro Tabu da Morte, do sociólogo José Carlos Rodrigues: A morte é um evento tão sem sentido que ameaça o sentido de todos os outros eventos.

Foi de fato uma surpresa que este trabalho tenha superado os preconceitos que sabemos existir a respeito do assunto, que tenha conquistado o apreço dos leitores e seja hoje descrito como um livro “leve” e “suave” enquanto carrega no seu roteiro duas mortes violentas, a insinuação de um suicídio e um desaparecimento. Já no prefácio aviso que a obra foi feita para “enganar a morte”, e parece mesmo que logrei algum êxito, já que algumas resenhas críticas o consideraram uma abordagem não amargurada.

O meu objetivo, ao propor a apresentação neste encontro, é confirmar a sua filiação à temática órfica, e também dizer como a literatura ficcional pode contribuir para ampliar o debate sobre a dispersão, sobre vitória da entropia que a morte configura. Ainda, como a arte pode descrever os rituais religiosos e místicos em sua complexidade, além de falar sobre a ânsia de permanência que a certeza do fim nos traz.

Devo dizer que, ao relacionarmos história, cultura e cemitérios, nunca estamos fazendo o estudo de um passado diacrônico, mas a arqueologia de um passado que se impõe como permanência, na sincronia com nossa época. Não só os campos santos, mas costumes que tive a oportunidade de contemplar como a Festa de Muertos no México e a devoção às almas do purgatório, em Nápolis, dizem dessa vontade de superar a finitude.

Gostaria de concluir propondo dois pontos para a reflexão, que imagino relacionados ao propósito desse encontro, desejando que contemos mais e mais com pesquisadores que os enfrentem. O primeiro deles é o transumanismo, a tendência científica que trata justamente da permanência, um mundo em que a tecnologia se aproxima cada vez mais do registro total da consciência, inclusive usando vídeos, áudios, fotografias e inteligência artificial para presentificar os falecidos. O transumanismo, alías, tem outras proposições, inclusive suprimir a morte com manipulação biológica e genética, e carrega implicações éticas que já estão em debate pela forma como são manipuladas econômica e politicamente.

O outro ponto é a prática do Urban Exploration, ou Exploração Urbana, ou Urbex, que vem a ser uma espécie de hobby no qual grupos de amigos visitam lugares abandonados, casas antigas, hospitais, cidades que foram deixadas para trás, realizando uma arqueologia cemiterial fora dos cemitérios, observando traços materiais e colhendo sensações que ficaram retidas na cortina do tempo. Esses grupos têm deixado na internet um enorme volume de registros das suas incursões, revelando que é possível conviver com a morbidade e a melancolia e mesmo atravessá-las.

A tarefa é enorme e multifacetada, exigindo versatilidade de todos os colaboradores da ABEC. Mas este é o nosso desafio, que empresta algum sentido frente ao que parece ter sentido nenhum.

Muito obrigado.

Franklin Carvalho


VIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais – ABEC
Auditório da Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC), de 17 a 20/7/2017

Presidente da ABEC: Profª Clarissa Grassi
Presenças destacadas: Professoras Maria Elízia Borges, Cláudia Rodrigues, Elisiana Trilha Castro e Fabiana Fabiana Comerlato
Programação completa: http://estudoscemiteriais.com.br/index.php/viii-encontro-nacional-abec/

Monday, May 15, 2017

A Festa do Boi Roubado e o Século XXI da caatinga




Comparecer à Festa do Boi Roubado, no distante povoado. Visualizar dali as luzes que piscam de outros e outros agrupamentos, todos de casas minúsculas, como pequenos bairros pobres que tramam uma metrópole dentro da caatinga. Sentir o cheiro da terra molhada pela chuva e de fumaça de gasolina. Observar os meninos bêbados que voam de roça a roça, três por motocicleta, cortando o escuro de caminhos enlameados, rentes às cercas de arame farpado. Saber dos crimes de tráfico e de sangue no meio do mato e testemunhar a resignada mansidão das mães pobres.

Ouvir os amigos falando do sofrimento de um jabuti quando é esfolado vivo para ceder sua carne mínima ao paladar humano. Ser informado de que o jabuti se reproduz às pencas e, esperto, migra para outro mundo quando vêm as tempestades.

Acordar numa madrugada e ver os porcos e carneiros nus de pelos, postos sobre as bancas do mercado da cidade antes que os açougueiros os retalhem. Escutar no rádio uma música de 1970: “Nesta cidade todos têm felicidade. Eu só quero é lhe ver para nunca mais chorar”. Tomar café na Branca do mercado e ouvir também no rádio, mais uma vez e todo dia, um locutor pedindo a volta da ditadura.

Desejar a tempestade para todos os jabutis.

Lembrar do carro velho que nos levou para a festa no povoado, os amigos em silêncio singrando a pista de barro, a chuva no vidro. Dos jovens perto da fogueira, dez por família, todos com apelido de Inho. Recordar das corujas piscando assim que se fez estio.

Acordar de madrugada novamente e ver a revoada dos veludos na praça, em bandos como andorinhas. Cumprimentar o plantonista da funerária, que deixa a loja quando o dia clareia. Aborrecer-me com a fachada cínica do Banco do Aposentado. Ver a fila insone na sede da Assistência Social e o retorno dos esmoleres na praça, e pobres com medo de que o mundo mude. Encontrar já no sol da feira o velho João que xinga e ri, nossa, como ele ri resmungando da saúde.

Falar, com as lavradoras rurais no seu sindicato, contra os programas da TV assassinos ao fim da tarde e o destempero machista dos homens enciumados. Contar para a mãe que Machado, o melhor dos sanfoneiros, teve alta do hospital. Rir com ela. Rir em profundas confidências místicas com Almerinda, rezadeira nonagenária. Sobreviver aos anos 1970 de 2017.

Desejar a tempestade para todos os jabutis.


*Abraços para Mirian Carvalho, que me levou para a festa do Boi Roubado, no povoado do Pau de Rato, em Araci-BA, e para Gilma Reis, que me convidou para a palestra sobre Saúde Mental, do Coletivo de Mulheres no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, na mesma cidade.

Wednesday, October 19, 2016

Novo aqui? Você não é o único



Este blog foi criado em 2003, mas passou a incluir mais posts a partir de 2008. Tornou-se, principalmente, um repositório de anotações sobre a pesquisa que eu conduzia sobre a morte no catolicismo, com vistas a um possível mestrado. Até outubro de 2016, o blog foi indexado como não localizável a partir de pesquisas no google, ou seja, esteve secreto, daí não haver adesões ou manifestações do público até então. Aqui o leitor pode encontrar anotações referentes a Antropologia, Física e Literatura, e poemas, além de outras divagações. Muita coisa é também pura anotação de campo. Bem vindo!

Tuesday, October 18, 2016

Fantasmas muito presentes







Em seu livro Fantasmas Falados – Mitos e Mortos no Campo Religioso Brasileiro (Unicamp - 1996), o antropólogo Oscar Calavia Sáez resume uma arrojada pesquisa que realizou sobre os cultos populares dedicados a falecidos (um velho negro escravizado, uma prostituta, crianças etc) que tiveram vidas ou mortes trágicas, ou as duas. Após o sepultamento, estes personagens passaram a ser procurados pelos vivos, que continuamente lhes demandam milagres e lhes fazem promessas.

Estes e outros santos não oficiais e todas as histórias em torno deles permitiram ao autor criar um perfil da religiosidade brasileira, onde existem “santos” que podem ser cultuados no altar e, às vezes ao mesmo tempo, incorporados em transes mágicos – esse duplo desempenho das entidades já vale um debate à parte no livro.

Um segundo entendimento é de que há um panteão vasto reconhecido por todos os brasileiros (Deus, Nossa Senhora, orixás, almas, espíritos de luz, caboclos, pretos velhos, exus, pombas giras, erês etc) e que as pessoas escolhem aqueles que desejam venerar sem, enfatize-se, sem descrer dos outros: “...Vimos como se pode não crer em entidades – as pombas-gira e exus do cemitério, por exemplo – de cuja existência não se tem dúvidas... Trata-se na prática de entidades independentes, que o ser vivo não pode negar, mesmo quando  pode manipulá-los ou afastar-se deles” (pg 155).

Nessa medida, as religiões são bastante elásticas, e mesmo que não o sejam, seus membros superam a teologia para alcançar os guias – e os favores - que quiserem. E um mesmo “santo” pode ser cultuado de formas “diametralmente opostas”, pelos grupos ou indivíduos que o acompanham.

No livro, que foi fruto de uma tese de mestrado pela Universidade Estadual de Campinas, Sáez reconhece também que o brasileiro tem uma relação “promíscua” (pg. 179) com o além, e usa uma figura de linguagem para descrevê-la: “o muro do cemitério caiu” - seja porque “os de ambos os lados se reconhecem como irmãos”, seja porque “todo mundo estava em cima” do muro (pg. 182).

Ora, é possível perceber a interação intensa entre vivos e o além por meio de sinais mais ou menos redundantes. Acreditamos em reencarnação de pessoas que não perderam a memória de outras vidas, e que estão por aí a executar dívidas, e também achamos que os desencarnados influenciam os acontecimentos, com suficientes objetivos e recursos. Também recorremos aos mortos (santos de todos os tipos, desnecessária a canonização) para deslindar nossos problemas. E, como já dito, não afastamos a existência de nenhuma – nenhuma – plausível entidade falecida.

Ter encontrado o Fantasmas Falados lavou minha alma (desculpem o trocadilho!) porque me remeteu a uma trajetória de pesquisa que fiz, e que Calavia Saez também percorreu, de estudo de religiões brasileiras e rituais pós-funerais. Particularmente, lembra um evento especial, quando conheci o culto a um menino sepultado no cemitério da Consolação, em São Paulo, que influenciou a redação do meu romance Céus e Terra. Neste livro, o personagem principal, o menino Galego, também se torna objeto de culto, como um santo não oficial.

Mas, mais do que isso, o autor, como outros pesquisadores brasileiros – em diversas áreas, Reginaldo Prandi, Roberto da Matta e João José Reis, para citar alguns – projeta, a partir da religiosidade, visões sobre a sociedade (violência, preconceito, estratificações) e o comportamento do cidadão médio. Esses dados muito podem trazer à literatura. Por isso, depois de ler o livro do professor Oscar, um espanhol, ficou mais fácil escrever um conto que há algumas semanas enredava, sobre o comportamento político numa cidade do interior da Brasil. Mais uma vez, olhando nossas relações com os mortos, aprendi algo sobre nossa relação entre vivos.

Para mais informações sobre Oscar Calavia Sáez, atualmente professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina, pós-doutorado, com vínculo com diversas instituições de pesquisa, clique aqui (com dados conferidos da Plataforma Lattes).

Monday, November 02, 2015

Nó na língua



Dia desses desisto de escrever com correção, pelo menos no whatsapp, onde todos estão engolindo pontos de interrogação, juntando agente e onde “tudo estar bem”. Às vezes me policio e digo: “você tem que dar o exemplo, a língua é um dos fundamentos da República”.
Certo é que quando vejo uma palavra com uma grafia diferente da que estou acostumado, questiono se estou errado e até vou ao dicionário (às vezes a falha é minha mesmo!), mas meus interlocutores parecem não se importar se redijo “quando?” e me respondem “cuando puder!”. Nenhum problema nisso, entendo as carências da sociedade e, como diria meu amigo Zezão, a recorrente legenda “a falta de políticas públicas”.
A questão é que a República Língua tem problemas maiores. Um mototaxista no interior me contou que seu irmão foi preso em setembro e solto em março. Diante de meu olhar confuso, indagou:
- Depois de setembro, vem o quê? Março ou maio? Eu não entendo essas coisas...
Outro dia, conversando com um estudante de Direito, alertei para o fato de a população pobre achar que questões criminais são resolvidas com pagamentos. Paga-se R$ 3 mil a um advogado, obtém-se um habeas corpus e o sujeito é solto. O processo, que é apenas mais um na pilha imensa do fórum, não anda e o réu primário volta à vida normal, para nunca mais errar. Para a sua família carente custou uma fortuna, mas o problema está liquidado, fez-se a Justiça, perdoou-se o pecado leve - usar uma moto desviada, dirigir embriagado etc.
Lembro da dupla Chico Buarque e Gilberto Gil perguntando “Esse pileque homérico no mundo, de que adianta ter boa vontade?”. E antes que eu decida o que fazer, o whatsapp vibra no meu bolso dizendo “O mundo vai acabar no domingo. Repasse para 12 amigos que você sobrevive”. Vou repassar.