Thursday, September 08, 2011

Acabou o inverno no 2 de Julho

Monday, October 18, 2010

Wednesday, January 27, 2010

Depois de algum tempo visitando cemitérios, percebi que outras pessoas deixavam, em covas e nas áreas comuns de oração, junto às velas, copos e pequenas garrafas de água. De repente, lembrei-me de que no Ofício das Almas, mais de uma vez se fala em "secura" e sede das almas que estão no purgatório e ali se menciona claramente "o rico avarento". Também, em outros livros há referências a Lázaro cruzando com o tal rico. Pesquisando na internet, localizei a seguinte passagem bíblica, que pode fundamentar, em parte, o costume de levar-se àgua às covas:



"Parábola O rico avarento e Lázaro na Bíblia

Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele. E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico e foi sepultado. E, no Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão e Lázaro, no seu seio. E, clamando, disse: Abraão, meu pai, tem misericórdia de mim e manda a Lázaro que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro, somente males; e, agora, este é consolado, e tu, atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá, passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos.

Lucas 16:19-29"

Refletindo um pouco mais, lembrei que Lázaro integra uma parábola, ou seja, é um personagem fictício, mas em muitas regiões do Brasil ele é tomado como um santo real, representado por um mendigo que tem as feridas lambidas por cães, e normalmente associado a Omolu, orixá que rege o mundo dos mortos. Ainda a propósito da parábola acima, uma interessante leitura associa o rico ao povo judeu, que tem originalmente todas as  bênçãos derramadas por Deus, enquanto Lázaro representaria os não-judeus que viviam das migalhas de bênçãos que os judeus deixavam cair ao chão. No entanto, segundo esta mesma leitura, que toma um enfoque cristão, o povo-não judeu mostra-se mais digno da salvação do que os descendentes de Abraão.

Wednesday, June 17, 2009




Liberdade, morte e consumismo
Franklin Carvalho
“Não sei pra que tanta agonia, depois morre e deixa tudo aí!”
Esse falar baiano, que o preconceito poderia atribuir injustamente à preguiça na Boa Terra, é, segundo o sociólogo suíço Jean Ziegler, o fundamento de uma verdadeira revolução libertadora do indivíduo. Em outras palavras, compreender que se vai morrer, usar essa crença para o desapego e triunfar sobre as exigências fúteis do consumismo e do estresse não é uma atitude deprimente, mas, ao contrário, amplamente emancipadora.
Antes de mais nada, é preciso esclarecer que, ao contrário de nós, que crescemos temendo a simples pronúncia da palavra morte, Ziegler nunca se furtou a encarar o assunto. E podemos dizer “encarar” mesmo, já que, nos anos de 1960, viveu no Congo perturbado pela guerra civil e pela fome. Depois, veio ao Maranhão, à Bahia e ao Rio de Janeiro estudar a idéia de morte em religiões de matriz africana.
Pois bem, esse homem que foi professor da Universidade de Genebra e deputado pelo parlamento suíço, esteve no Convento de São Francisco, aqui em Salvador, e registrou uma frase que se encontra no relógio de sol: feriant omnes – ultima necat, ou seja, cada hora que passa fere, a derradeira mata. Nada mais simples, assustador e confortador; tudo é passageiro, tudo é efêmero, não há mal que dure para sempre nem bem que nunca acabe.
Mas Ziegler foi mais além, e no livro Os vivos e a Morte (Zahar, 1977) registrou que não existe igualdade diante da morte, mas grandes diferenças, a começar da expectativa de vida, que varia de acordo com a classe social, a raça ou a nacionalidade da pessoa. Outras diversidades surgem a depender das culturas, dos ritos funerários, ou seja, cada comunidade tem sua experiência de morte. A padronização desses ritos, o silêncio sobre o medo e a dor, que são sentimentos perfeitamente humanos, e a completa profissionalização dos funerais teriam razões políticas.
O livro merece ser resenhado mais de 30 anos depois da sua publicação, primeiro porque nos mostra que o conflito entre ciência e religião é uma armadilha, e que uma ideologia laica pode ser tão manipuladora e opressiva quanto um estado fundamentalista. Em segundo lugar, porque é atualíssimo na crítica à sociedade, citando Roger Bastide para condenar “a indiferença afetiva e o isolamento nas grandes metrópoles, a sexualidade reduzida à fornicação, a fragmentação de nosso comportamento cotidiano em consequência de pertencermos a grupos múltiplos, que nos impõem com frequência papéis contraditórios, a perda de sentimento de nossa participação no mundo social...”. Há algo mais parecido com o mundo da internet?
O sociólogo garante que quando as religiões convocam a uma reflexão sobre o tema da morte fazem o “combate e reivindicação de vida contra a ignorância organizada da sociedade mercantil triunfante”. Essa sociedade, ou melhor, o capitalismo, aliena o homem da sua consciência de finitude, aprisionando-o a ânsias e coisas efêmeras que antes possuem o consumidor do que são possuídas por ele.
Na Idade Média, explica, a morte encerrava a vida terrestre, mas prenunciava o início da aventura final do destino. Na Renascença, artistas e intelectuais assumiram a tarefa de produzir imagens que legitimassem o poder político e econômico, enfim, o capitalismo ascendente, e não reconheciam outras regras senão a tradição artística e intelectual. Até hoje essas categorias continuam exercendo o mesmo papel, mantendo essa legitimação nas universidades e em todos os ambientes de reprodução do capitalismo. Pior, querem fazer crer que a sua ideologia, a ciência, é uma lei universal da natureza humana, “quando se trata apenas de uma regra do cosmos cultural que o produz”.
Do alto de sua experiência na África, Ziegler discorre sobre a importância das religiões afro-brasileiras, e da visão nagô a respeito da morte, no enfrentamento dos horrores da escravidão. Ele também relata como, no candomblé, a crença num outro plano de existência faz parte do combate diário: “A linguagem branca se impõe pela repressão policial, a pressão social e o sistema escolar. A linguagem nagô vinga-se clandestinamente quando os brancos, torturados pela angústia da morte, vão consultar as grandes ialorixás do candomblé, à noite, em geral”.
E conclui: “Nenhuma teoria de desigualdade humana, nenhuma perversão racista ou imperialista, por mais sutil que seja, resiste diante da evidência e da angústia da morte... É preciso reintroduzir a morte na linguagem para com ela fazer o fundamento dinâmico do nosso combate igualitário”.
Eis uma proposição inegavelmente válida para questionar o desequilíbrio ético da humanidade. Serve também para quem deseja saber “pra que tanta agonia”. Devemos sempre ponderar diante dos desafios da vida, mas com a consciência de que já sabemos o final do filme, ou uma boa parte dele: O filme terá um fim. Aliás, os filmes terão fim, curtas ou longas metragens. Menos resmungo com o estacionamento do cinema, por favor!

Friday, June 27, 2008

Wednesday, June 25, 2008

2008.03.09 – Morte Líquida 7


1) A morte, para os vivos, é o triunfo da natureza. Mais ainda, é a humilhação inegociável, inescusável, inexorável que a natureza impõe ao homem. Como conceber, então que logo ali ele aponte para uma concepção da morte que seja a negação total da natureza, ou seja, o sobrenatural, o transcendental?


2) Por outro lado, reconhece-se que o corpo, sim, deverá ser entregue á natureza sem luta. Daquilo que vemos, nada se aproveitará. O enterro é humilhante, é agressivo, a sua visão é aterradora. Deve-se mesmo perguntar por que no século XXI, onde se poderia criar formas mais dignas de desfazimento de cadáveres, inclusive com a aceleração da sua decomposição para posterior guarda dos ossos, eles ainda são jogados num buraco.


3) No catolicismo popular brasileiro, para realizar o desfazimento, O corpo é alienado do defunto, e se torna a encarnação do paradoxo. Logo que a morte alcança o corpo, ele pertence exclusivamente à natureza. É a negação do ser social (Vinícius de Moraes: “E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama” ), agora resumido ao indivíduo perante a natureza. Finalmente constituído como indivíduo, ou não-indivíduo, mas também não-sujeito social ou o silêncio dessas representações (Uma inscrição numa lápide em Serrinha é conclusiva: “Aqui jaz o corpo que Fulana desfrutou nesse plano astral”).


4) Também se usa dizer os restos mortais, mas a expressão “o corpo” ganha novo significado, despersonalizando o falecido, agora um objeto ao qual é necessário dar o devido encaminhamento. Essa despersonalização do corpo, ao negar a presença do finado na carne, prepara os vivos para o desfazimento, para a eliminação cadáver, desvalorizando (ou re-valorizando) o que será rejeitado (o corpo) e reafirmando a sua diferença em relação aos vivos e, por conseguinte, dos vivos em relação aos mortos. Os vivos têm nome, o morto é “o corpo”.


5) Observa-se aí, porém, também uma fragmentação do morto. O funeral pertence ao morto integral. Ele ali é trazido como vivo – o funeral como a sua festa, com seus convidados, todos os amigos e parentes, inclusive os inconciliáveis entre si – para a oração que encaminha o espírito e para o sepultamento do seu vazio e despersonalizado (Alphonsus de Guimarães: “Sua alma subiu ao céu / seu corpo desceu ao mar). Esse complexo nem sempre é assim configurado, e nem tanto pacificamente, principalmente quanto mais inesperadas e brutais as circunstâncias da morte no grupo familiar/comunitário. O que se suspeita é que esse é o modelo, o ideal.


6) Orfeu, deus da mitologia grega, tendo falecido a sua esposa Eurídice, vai ao inferno recamar que lhe seja devolvida a sua amada. Como forma de convencer Hades, rei dos mortos, Orfeu entoa uma canção de amor tão comovente que todas as almas do inferno choram e Hades consente em devolver-lhe Eurídice. O rei impõe, porém , como condição, que, até a saída do inferno, Orfeu não olhe para a sua esposa. Orfeu, porém, não resiste, olha para ela, perde –a para sempre e volta sozinho ao mundo dos vivos onde é devorado pelas bacantes.


Essa história sempre me intrigou pela questão que me impunha e que me parecia ser a mais natural de quem quer que a ouvisse: Porque Orfeu não resistiu e olhou para Eurídice antes de sair do inferno? Cheguei mesmo a duvidar do seu amor por ela, como se tivesse bastado ao deus provar e vencer a resistência de Hades. Passei anos com essa questão e segui crendo que se tratava de uma história de amor impossível, pois Orfeu não terá Eurídice nem na terra ( a sua morte aconteceu na noite de núpcias), nem no inferno, nem de volta à terra, nem se fala disso após a sua (dele) morte.


Busquei,no entanto, outra alternativa: Orfeu, promovido pelo rei Hades, não pode ceder à paixão por Eurídice, que representaria um tipo de amor subalterno, fútil, diante do valor maior, a arte. Esse era apenas um exercício de livre pensar – que parecia naufragar em si próprio, posto que Orfeu não finaliza a sua trajetória em hades, mas dele também se separa – mas que me abriu a consciência para o detalhe que fecha o raciocínio. Por fim, me ocorreu que o mito Orfeu-Eurídice-Hades, como todo mito, encerra uma sentença léxica, uma moral, e que antes de perguntarmos porque Orfeu transgrediu a norma, é preciso saber porque ele foi proibido de olhar a esposa.


A resposta que me pareceu óbvia é que Eurídice estava morta, portanto não podia ser desejada. Talvez, depois que regressasse do inferno, voltasse a viver, ela pudesse ser objeto de amor, de admiração, do “olhar” apaixonado. Enquanto morta, porém, não poderia squer ser considerada. Esse é um mito de interdição, portanto, da interdição do morto, que não pode ser desejado.


Talvez Eurídice voltasse á vida se Orfeu completasse o recomendado, mas como trazer da morte alguém amado, se é proibido amar (tanto) esse alguém morto?


Pode ser também interessante entender esse mito como representação de um tabu acerca do corpo e, por conseguinte, da sexualidade dos mortos.

Monday, April 14, 2008

Taça de lágrimas




Bebe em silêncio a tua taça de dor
E até em pensamento silencia
O que te faz sofrer

Segue no escuro da mata
Vai até onde não vai
O som desta palavra

E se a dor te corta a goela
E o susto da saudade
Do conforto rói e afaga

Te alimente a tua carne
Te sustente a tua asa
Tua casa é onde vagas
Toma, é o que tens,
A tua taça de lágrimas