2008.04.02 – Morte Líquida 6 - Ainda Semana Santa
Ainda sobre a Semana Santa: Jesus é o messias ou, se assim o preferirmos, o Deus que experimentou a morte humana e que oferece essa experiência para que todos comunguem - literalmente – dela. Essa sua experiência (o complexo Cristo vivo-morto-ressuscitado) é o vade-mecum da morte e nos há de servir também como modelo para viver. Se a morte do messias é uma crise que o sistema religioso cristão faz representar ciclicamente, com o desfecho previsível da ressurreição, esse modelo é transposto para as crises pessoais diárias, pequenas mortes, e até mesmo para a morte propriamente dita, a perda de um ente querido, criança, jovem, adulto ou idoso. Todas as apelações (relações de apelo) ao Cristo passam pela morte de Cristo, que ressuscitou, ou que pelo menos se nos igualou, isto é, se humanizou, porque morreu. E todas as relações com a morte fazem o mesmo trajeto, ou seja, passam por Jesus, pelos mesmos motivos.E, segundo:Jesus é mártir, mas teve sepultura, ao contrário de muitos outros que o seguiram, e o sepultamento de Jesus é “fato” que já o aproxima da morte que os fiéis esperam ter. Na verdade, Jesus é homem, mártir, morto, santo e Deus, e observamos que estas categorias são bastante diferenciadas, ao menos no tocante ao morto, na cosmologia, na veneração católica.
Sunday, February 24, 2008
Morte Líquida 3 - O homem transcendental ainda é homem?
O que me parece ser uma linha de investigação urgente é aquela que diz respeito à morte como identidade final versus a morte como fim das representações. Sim, porque essa idéia de que justamente no momento em que o homem encontrara Deus se faz a negação do homem? D’Assumpção fala em perecimento de um “eu exterior”, que representa o individuo em suas relações com o mundo material e – é bom destacá-lo – com o mundo social. Em seu lugar sobreviria um eu interior, trinitário como o primeiro (formado por espírito, mente e corpo,) mas com total consciência espiritual e corpo e mente reconfigurados fora do contexto espaço-temporal. Ali, onde não haveria nem espaço nem tempo, também não haveria futuro, nem envelhecimento nem morte. Eis a eternidade, mas o autor fala de um homem reconfigurado ligado a Deus, caminhando para Deus, e explica:
Quando o homem morre, ocorre o momento mais importante de sua existência seu Homem Exterior desaba, deixando emergir totalmente o seu Homem Interior. Todas as máscaras usadas durante a vida física se desfazem e o Homem Interior, com todas as marcas do Home Exterior, assume plenamente... Será este Homem Interior que, em função de tudo o que viveu em seu tempo de vida física, de todos os seus atos e decisões, palavras e pensamentos, assumidos com o pleno uso do livre-arbítrio, irá tomar a sua decisão final e definitiva: com Deus ou sem Deus” (D’Assumpção, Evaldo Alves, Os que partem Osque ficam, Ed. Vozes, 7ª edição, Petrópolis, 1990, Pgs. 85-86).
Mais à frente: “A maneira como vivemos na unidade Homem Exterior – Homem Interior será o parâmetro utilizado pelo Homem Interior para tomar a sua decisão. E Deus irá, não como juiz mas como Pai, receber esta decisão e respeitá-la inteiramente... Mesmo desejando ardentemente que a decisão seja por Ele, acatará a decisão “sem Ele”. E esta decisão, repetimos, será por toda a eternidade, por não haver um futuro para mudança. Onde inexiste o tempo, inexiste o futuro. A decisão, “para Deus”, corresponderá ao alcance da plena e perfeita felicidade: é o céu de nossa infância” (idem, pg. 86)
Observemos mais uma vez aqui que a expectativa da reaização pós-mortem é a expectativa de um novo eu, ou de uma reforma na representação de si mesmo, consoante com a idéia de imperfeição do humano, mas também de um ego que, individualmente e sozinho, não pode sobreviver eternamente, que não se sustenta – ou que não se suporta, ou, ainda, que não suporta a vida – eternamente.
2) Gostaria de localizar em diversas correntes religiosas do espectro umbanda-espírita-católica, essa reafirmação do “mundo” – plano existencial dos vivos, em contraposição com o plano transcendental dos mortos – como um lugar sujo, inverso de um “além” puro e ideal. Mais importante ainda, as perguntas são: por que Deus é identificado no segundo plano, da negação do ego, e por que a religião e a prática religiosa representam a diluição do ego (Lévi-Straus, O Feiticeiro e o seu feitiço”). O problema é que a oposição ego X Deus, que parece tão cara à psicologia, no instrumental teórico da antropologia só pode ser apreendido na forma representações X representações do divino. Começo a compreender, então, que as representações relativas à morte podem ser colocadas diante de outras situações limítrofes, mas ainda é precisso assenhorar-se de uma ferramenta teórica que enquadre essas crises que passo a chamar de “pequenas mortes” (sem trocadilho com a expressão francesa para designação do orgasmo): A catarse na renúncia ao alcoolismo, as conversões, as curas xamânicas e outros processos que, auxiliados e mediados religiosamente, renegam a autonomia do indivíduo diante do coletivo religioso e/ou do coletivo espiritual.
Memorando Morte Líquida 4
1) “-Por que você não se deixa morrer, Bingo?”.
“- Não sou infeliz o suficiente. Não sou feliz, mas também não sou infeliz o suficiente”
Esse diálogo, dito na Peça Rough for Theatre, de Samuel Becket, revela bem o que Norbert Elias critica no Teatro do Absurdo, a intenção de conceber a vida de cada um como um palco individual. Elias denuncia que esse tipo de visão se esgota no indivíduo buscando em si mesmo o sentido para a vida. E se frustrando, porque o sentido de nossas vidas está nos que nos cercam. De fato, Becket concebia persoagens isolados, incomunicáveis, muitas vezes deficientes físicos inacessíveis e arredios. Esta visão se radicaliza na trilogia Malone, em prosa, mas em todo campo becketiano não há função para a comunicação, nem para as ações, talvez somente para os pequenos objetos, erráticos . Acredito, no entanto, e aposto nisso o Nobel de Literatura concedido ao irlandês, que é essa defesa apaixonado e vigorosa do individualismo que torna a sua obra um marco na história da humanidade.
2) Algumas considerações que faço com relação à minha pesquisa sobre a morte:
a) Não pretende ser uma etnografia religiosa, a princípio, mas desde o começo se propõe questões abrigadas num locus social mais difuso. Se escolho como ambiente um cemitério ou uma igreja, ou determinado grupo social, o que devo observar não é a homogeneidade entre os atores, mas o choque entre eles ou o debate, principalmente;
b) De um ponto de vista pessoal, tive perdas marcantes na infância com o suicídio de meu pai e as mortes de meus melhores amigos em situações distintas. Esses eventos influenciaram um gosto literário pesado que, ao contrário do que acontece com outras pessoas, não se diluiu nos primeiros versos da minha juventude. Pelo contrário, o tema me perseguiu e me levou, por fim, ao encontro com o notável A morte é uma festa, de João José Reis, uma das motivações para converter em pesquisa as minhas inquietações.
O que me parece ser uma linha de investigação urgente é aquela que diz respeito à morte como identidade final versus a morte como fim das representações. Sim, porque essa idéia de que justamente no momento em que o homem encontrara Deus se faz a negação do homem? D’Assumpção fala em perecimento de um “eu exterior”, que representa o individuo em suas relações com o mundo material e – é bom destacá-lo – com o mundo social. Em seu lugar sobreviria um eu interior, trinitário como o primeiro (formado por espírito, mente e corpo,) mas com total consciência espiritual e corpo e mente reconfigurados fora do contexto espaço-temporal. Ali, onde não haveria nem espaço nem tempo, também não haveria futuro, nem envelhecimento nem morte. Eis a eternidade, mas o autor fala de um homem reconfigurado ligado a Deus, caminhando para Deus, e explica:
Quando o homem morre, ocorre o momento mais importante de sua existência seu Homem Exterior desaba, deixando emergir totalmente o seu Homem Interior. Todas as máscaras usadas durante a vida física se desfazem e o Homem Interior, com todas as marcas do Home Exterior, assume plenamente... Será este Homem Interior que, em função de tudo o que viveu em seu tempo de vida física, de todos os seus atos e decisões, palavras e pensamentos, assumidos com o pleno uso do livre-arbítrio, irá tomar a sua decisão final e definitiva: com Deus ou sem Deus” (D’Assumpção, Evaldo Alves, Os que partem Osque ficam, Ed. Vozes, 7ª edição, Petrópolis, 1990, Pgs. 85-86).
Mais à frente: “A maneira como vivemos na unidade Homem Exterior – Homem Interior será o parâmetro utilizado pelo Homem Interior para tomar a sua decisão. E Deus irá, não como juiz mas como Pai, receber esta decisão e respeitá-la inteiramente... Mesmo desejando ardentemente que a decisão seja por Ele, acatará a decisão “sem Ele”. E esta decisão, repetimos, será por toda a eternidade, por não haver um futuro para mudança. Onde inexiste o tempo, inexiste o futuro. A decisão, “para Deus”, corresponderá ao alcance da plena e perfeita felicidade: é o céu de nossa infância” (idem, pg. 86)
Observemos mais uma vez aqui que a expectativa da reaização pós-mortem é a expectativa de um novo eu, ou de uma reforma na representação de si mesmo, consoante com a idéia de imperfeição do humano, mas também de um ego que, individualmente e sozinho, não pode sobreviver eternamente, que não se sustenta – ou que não se suporta, ou, ainda, que não suporta a vida – eternamente.
2) Gostaria de localizar em diversas correntes religiosas do espectro umbanda-espírita-católica, essa reafirmação do “mundo” – plano existencial dos vivos, em contraposição com o plano transcendental dos mortos – como um lugar sujo, inverso de um “além” puro e ideal. Mais importante ainda, as perguntas são: por que Deus é identificado no segundo plano, da negação do ego, e por que a religião e a prática religiosa representam a diluição do ego (Lévi-Straus, O Feiticeiro e o seu feitiço”). O problema é que a oposição ego X Deus, que parece tão cara à psicologia, no instrumental teórico da antropologia só pode ser apreendido na forma representações X representações do divino. Começo a compreender, então, que as representações relativas à morte podem ser colocadas diante de outras situações limítrofes, mas ainda é precisso assenhorar-se de uma ferramenta teórica que enquadre essas crises que passo a chamar de “pequenas mortes” (sem trocadilho com a expressão francesa para designação do orgasmo): A catarse na renúncia ao alcoolismo, as conversões, as curas xamânicas e outros processos que, auxiliados e mediados religiosamente, renegam a autonomia do indivíduo diante do coletivo religioso e/ou do coletivo espiritual.
Memorando Morte Líquida 4
1) “-Por que você não se deixa morrer, Bingo?”.
“- Não sou infeliz o suficiente. Não sou feliz, mas também não sou infeliz o suficiente”
Esse diálogo, dito na Peça Rough for Theatre, de Samuel Becket, revela bem o que Norbert Elias critica no Teatro do Absurdo, a intenção de conceber a vida de cada um como um palco individual. Elias denuncia que esse tipo de visão se esgota no indivíduo buscando em si mesmo o sentido para a vida. E se frustrando, porque o sentido de nossas vidas está nos que nos cercam. De fato, Becket concebia persoagens isolados, incomunicáveis, muitas vezes deficientes físicos inacessíveis e arredios. Esta visão se radicaliza na trilogia Malone, em prosa, mas em todo campo becketiano não há função para a comunicação, nem para as ações, talvez somente para os pequenos objetos, erráticos . Acredito, no entanto, e aposto nisso o Nobel de Literatura concedido ao irlandês, que é essa defesa apaixonado e vigorosa do individualismo que torna a sua obra um marco na história da humanidade.
2) Algumas considerações que faço com relação à minha pesquisa sobre a morte:
a) Não pretende ser uma etnografia religiosa, a princípio, mas desde o começo se propõe questões abrigadas num locus social mais difuso. Se escolho como ambiente um cemitério ou uma igreja, ou determinado grupo social, o que devo observar não é a homogeneidade entre os atores, mas o choque entre eles ou o debate, principalmente;
b) De um ponto de vista pessoal, tive perdas marcantes na infância com o suicídio de meu pai e as mortes de meus melhores amigos em situações distintas. Esses eventos influenciaram um gosto literário pesado que, ao contrário do que acontece com outras pessoas, não se diluiu nos primeiros versos da minha juventude. Pelo contrário, o tema me perseguiu e me levou, por fim, ao encontro com o notável A morte é uma festa, de João José Reis, uma das motivações para converter em pesquisa as minhas inquietações.
Friday, February 15, 2008
Morte Líquida 02 - Viagens de Gulliver
1) Em seu As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift fala que o personagem principal conheceu muitos lugares além de Liliput, que ficou famosa como a terra dos homens pequeninos. Um desses lugares é Luggnagg, onde, entre muitas maravilhas e bizarrice, podemos destacar a existência dos struldbruggs ou imortais. Nas palavras do próprio Gulliver/Swift:
“Ele então me disse que às vezes, apesar de ser muito raro, acontecia em uma família o fenômeno de uma criança nascer com uma mancha vermelha na testa, diretamente acima da sobrancelha esquerda, o que era marca infalível de que ela nunca morreria. A mancha, como ele a descreveu, tinha mais ou menos as dimensões de uma moeda de três pence de prata, mas ao longo do tempo ficava maior e mudava de cor; depois dos doze anos tornava-se verde e mantinha-se assim até os vinte e cinco anos, quando se adquiria um tom de azul profundo; aos quarenta e cinco ficava negra, do tamanho de um xelim inglês, e a seguir não se alterava mais... Que tal produção não era peculiar a nenhuma família, mas sim um mero efeito do acaso e que os filhos dos struldbruggs eram mortais, como todas as pessoas normais.”
Diante do interlocutor que lhe trouxera aquela informação, o protagonista do livro se revela maravilhado, supondo que o povo de Luggnagg era felizardo: “Felicidade acima de qualquer comparação é poder contar com esses excelentes struldbruggs que, mesmo tendo nascido da calamidade universal da natureza humana, têm suas mentes livres e desompromissadas, sem o peso e a depressão de espírito que a contínua apreensão da morte nos causa” [grifo de Franklin]. Ele ainda diz que, se fosse um struldbruggs, aperfeiçoaria-se nas virtudes e na generosidade, desenvolvendo sua sabedoria e auxiliando as gerações mais novas.
Para seu espanto, no entanto, o interlocutor explica sobre os struldbruggs: “Disse que geralmente agem como mortais até chegarem perto dos trinta anos, depois dos quais, pouco a pouco, vão se tornando melancólicos e abatidos, sentimentos esses que continuam a aumentar até que chegam aos oitenta... Quando alcançam os oitenta anos, o que é considerado o limite extremo da vida neste país, eles sofrem de todas as excentricidades e doenças dos demais velhos e além delas de muitas outras que surgiam com a atemorizante perspectiva de nunca morrer. Não apenas são teimosos, rabugentos, avarentos, taciturnos, presunçosos, tagarelas, como também são incapazes de sentir amizade e encontram-se mortos para todas as afeições naturais, que jamais se prolongam além de seus netos. Inveja e desejos impotentes são as paixões que prevalecem neles”.
“Os principais alvos contra os quais a inveja deles parece basicamente dirigida são os vícios dos mais jovens e as mortes dos mais velhos”, prossegue a narrativa, onde se explica que, dos mais novos são invejadas as possibilidades de prazer, e dos mais idosos, os funerais, a ida para “o porto do descanso, ao qual eles nunca terão esperança de aportar”. E “Já não se lembram de nada, a não ser do que aprenderam e observaram durante a juventude e a meia idade, porém até mesmo essas lembranças são imperfeitas”.
Ainda, e sinalizando para o que acontece com pessoas senis: “Assim que completam o termo de oitenta anos, são considerados mortos pela lei; seus herdeiros imediatamente apoderam-se de seus bens e apenas uma parcela mínima é mantida para seu sustento, então os pobres coitados passam a ser mantidos pelo público. Depois deste período, tornam-se incapazes de ter merecimento para qualquer emprego de confiança ou lucro, não podem comprar terras, arrendar seja lá o que for e não lhe é sequer permitido servir de testemunhas em qualquer caso, seja cível ou criminal, nem mesmo para decisão de marcos e fronteiras”.
Além disso: “Quando conversam, esquecem os nomes das coisas e os nomes das pessoas, até mesmo dos que são seus amigos e parentes mais próximos. Pelo mesmo motivo nunca podem se divertir com leituras, porque sua memória não serve mais para carregá-los do começo ao fim de uma sentença e com este defeito são privados da única diversão que de outra forma seriam capazes”.
Para concluir o capítulo em que trata do assunto, o personagem/narrador Gulliver diz que o rei de Luggnagg perguntou-lhe se queria enviar dois ou três struldbruggs para o seu país “a fim de armar nosso povo contra o medo da morte”. Ele parece ter entendido a lição e finaliza concordando com as leis do reino: “Por outro lado, como a avareza é a resultante necessária de envelhecer, aqueles imortais tornar-se-iam com o tempo proprietários de toda a nação e seriam o poder civil que, por falta de habilidade para ser bem controlado, terminaria com a ruína do bem público”.
Swift, Jonathan - Viagens de Gulliver, Editora Nova Cultural, São Paulo, 1996, PP 237-244.
2) Algumas considerações sobre o texto de Swift:
a) O texto, segundo a crítica, seria uma referência satírica aos membros da academia francesa, que eram chamados “os Imortais”. Na introdução da edição citada, se escreve: “O episódio dos struldbruggs propõe um grande problema que não era tão urgente no tempo de Swift mas que, graças à medicina, está se tornando cada vez mais urgente no nosso tempo: o problema que é prolongar até depois que a capacidade de gozá-la desapareceu” (pg. 12). Na verdade, a empolgação inicial do personagem com a possibilidade de uma vida eterna era motivada pela crença de que estavida seria acompanhada de uma saúde e de um vigor também eternos.
b) Swift, como se vê, aproveita a oportunidade para detratar estruturas onde os velhos estão agarrados ao poder. De qualquer forma, apresenta uma visão também negativa com relação aos detentores da imortalidade e contra a imortalidade em si. Não pude escapar de uma comparação com a imagem negativa que está associada a outro grupo de imortais, os vampiros. Creio que haja também outros casos em que se manifeste esse pejo, talvez porque se considere a imortalidade como anti-natural, e a vida eterna como algo degenerador. Como já aventei que a vida seria o território do ego, penso que esse tipo de raciocínio considera a vida eterna como a extrapolação do ego, acumulando e exorbitando suas vantagens e seus defeitos.
c) Eu já tinha terminado esse post, quando fui obrigado a reeditá-lo para inserir um trecho que localizei no livro Os que partem, os que ficam: “Mas já dizia o vampiro Drácula, no livro que o criou, que sua maior maldição era a impossibilidade de morrer. A imortalidade era o seu maior castigo!... Se admitirmos que o homem foi criado para a perfeita felicidade, mas que esta felicidade perfeita é impossível de ser alcançada enquanto estivermos sob as limitações do espaço-tempo, a morte, por representar o umbral de saída desta limitação, representa a única possibilidade – não a certeza! – de alcançarmos esta condição para o qual fomos criados” (D’Assumpção, Evaldo Alves, Editora vozes, Petrópolis-RJ, 1990, pg. 47-48). Ou seja, a vida eterna mais uma vez é considerada uma aberração, a morte é necessária e natural. Devo esclarecer, antes que se crie alguma confusão, que esse autor, um pouco mais à frente, repudia o suicídio e só admite a morte natural como forma de se chegar à “perfeita felicidade”.
1) Em seu As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift fala que o personagem principal conheceu muitos lugares além de Liliput, que ficou famosa como a terra dos homens pequeninos. Um desses lugares é Luggnagg, onde, entre muitas maravilhas e bizarrice, podemos destacar a existência dos struldbruggs ou imortais. Nas palavras do próprio Gulliver/Swift:
“Ele então me disse que às vezes, apesar de ser muito raro, acontecia em uma família o fenômeno de uma criança nascer com uma mancha vermelha na testa, diretamente acima da sobrancelha esquerda, o que era marca infalível de que ela nunca morreria. A mancha, como ele a descreveu, tinha mais ou menos as dimensões de uma moeda de três pence de prata, mas ao longo do tempo ficava maior e mudava de cor; depois dos doze anos tornava-se verde e mantinha-se assim até os vinte e cinco anos, quando se adquiria um tom de azul profundo; aos quarenta e cinco ficava negra, do tamanho de um xelim inglês, e a seguir não se alterava mais... Que tal produção não era peculiar a nenhuma família, mas sim um mero efeito do acaso e que os filhos dos struldbruggs eram mortais, como todas as pessoas normais.”
Diante do interlocutor que lhe trouxera aquela informação, o protagonista do livro se revela maravilhado, supondo que o povo de Luggnagg era felizardo: “Felicidade acima de qualquer comparação é poder contar com esses excelentes struldbruggs que, mesmo tendo nascido da calamidade universal da natureza humana, têm suas mentes livres e desompromissadas, sem o peso e a depressão de espírito que a contínua apreensão da morte nos causa” [grifo de Franklin]. Ele ainda diz que, se fosse um struldbruggs, aperfeiçoaria-se nas virtudes e na generosidade, desenvolvendo sua sabedoria e auxiliando as gerações mais novas.
Para seu espanto, no entanto, o interlocutor explica sobre os struldbruggs: “Disse que geralmente agem como mortais até chegarem perto dos trinta anos, depois dos quais, pouco a pouco, vão se tornando melancólicos e abatidos, sentimentos esses que continuam a aumentar até que chegam aos oitenta... Quando alcançam os oitenta anos, o que é considerado o limite extremo da vida neste país, eles sofrem de todas as excentricidades e doenças dos demais velhos e além delas de muitas outras que surgiam com a atemorizante perspectiva de nunca morrer. Não apenas são teimosos, rabugentos, avarentos, taciturnos, presunçosos, tagarelas, como também são incapazes de sentir amizade e encontram-se mortos para todas as afeições naturais, que jamais se prolongam além de seus netos. Inveja e desejos impotentes são as paixões que prevalecem neles”.
“Os principais alvos contra os quais a inveja deles parece basicamente dirigida são os vícios dos mais jovens e as mortes dos mais velhos”, prossegue a narrativa, onde se explica que, dos mais novos são invejadas as possibilidades de prazer, e dos mais idosos, os funerais, a ida para “o porto do descanso, ao qual eles nunca terão esperança de aportar”. E “Já não se lembram de nada, a não ser do que aprenderam e observaram durante a juventude e a meia idade, porém até mesmo essas lembranças são imperfeitas”.
Ainda, e sinalizando para o que acontece com pessoas senis: “Assim que completam o termo de oitenta anos, são considerados mortos pela lei; seus herdeiros imediatamente apoderam-se de seus bens e apenas uma parcela mínima é mantida para seu sustento, então os pobres coitados passam a ser mantidos pelo público. Depois deste período, tornam-se incapazes de ter merecimento para qualquer emprego de confiança ou lucro, não podem comprar terras, arrendar seja lá o que for e não lhe é sequer permitido servir de testemunhas em qualquer caso, seja cível ou criminal, nem mesmo para decisão de marcos e fronteiras”.
Além disso: “Quando conversam, esquecem os nomes das coisas e os nomes das pessoas, até mesmo dos que são seus amigos e parentes mais próximos. Pelo mesmo motivo nunca podem se divertir com leituras, porque sua memória não serve mais para carregá-los do começo ao fim de uma sentença e com este defeito são privados da única diversão que de outra forma seriam capazes”.
Para concluir o capítulo em que trata do assunto, o personagem/narrador Gulliver diz que o rei de Luggnagg perguntou-lhe se queria enviar dois ou três struldbruggs para o seu país “a fim de armar nosso povo contra o medo da morte”. Ele parece ter entendido a lição e finaliza concordando com as leis do reino: “Por outro lado, como a avareza é a resultante necessária de envelhecer, aqueles imortais tornar-se-iam com o tempo proprietários de toda a nação e seriam o poder civil que, por falta de habilidade para ser bem controlado, terminaria com a ruína do bem público”.
Swift, Jonathan - Viagens de Gulliver, Editora Nova Cultural, São Paulo, 1996, PP 237-244.
2) Algumas considerações sobre o texto de Swift:
a) O texto, segundo a crítica, seria uma referência satírica aos membros da academia francesa, que eram chamados “os Imortais”. Na introdução da edição citada, se escreve: “O episódio dos struldbruggs propõe um grande problema que não era tão urgente no tempo de Swift mas que, graças à medicina, está se tornando cada vez mais urgente no nosso tempo: o problema que é prolongar até depois que a capacidade de gozá-la desapareceu” (pg. 12). Na verdade, a empolgação inicial do personagem com a possibilidade de uma vida eterna era motivada pela crença de que estavida seria acompanhada de uma saúde e de um vigor também eternos.
b) Swift, como se vê, aproveita a oportunidade para detratar estruturas onde os velhos estão agarrados ao poder. De qualquer forma, apresenta uma visão também negativa com relação aos detentores da imortalidade e contra a imortalidade em si. Não pude escapar de uma comparação com a imagem negativa que está associada a outro grupo de imortais, os vampiros. Creio que haja também outros casos em que se manifeste esse pejo, talvez porque se considere a imortalidade como anti-natural, e a vida eterna como algo degenerador. Como já aventei que a vida seria o território do ego, penso que esse tipo de raciocínio considera a vida eterna como a extrapolação do ego, acumulando e exorbitando suas vantagens e seus defeitos.
c) Eu já tinha terminado esse post, quando fui obrigado a reeditá-lo para inserir um trecho que localizei no livro Os que partem, os que ficam: “Mas já dizia o vampiro Drácula, no livro que o criou, que sua maior maldição era a impossibilidade de morrer. A imortalidade era o seu maior castigo!... Se admitirmos que o homem foi criado para a perfeita felicidade, mas que esta felicidade perfeita é impossível de ser alcançada enquanto estivermos sob as limitações do espaço-tempo, a morte, por representar o umbral de saída desta limitação, representa a única possibilidade – não a certeza! – de alcançarmos esta condição para o qual fomos criados” (D’Assumpção, Evaldo Alves, Editora vozes, Petrópolis-RJ, 1990, pg. 47-48). Ou seja, a vida eterna mais uma vez é considerada uma aberração, a morte é necessária e natural. Devo esclarecer, antes que se crie alguma confusão, que esse autor, um pouco mais à frente, repudia o suicídio e só admite a morte natural como forma de se chegar à “perfeita felicidade”.
Thursday, February 14, 2008
Morte Líquida 01
Até onde li, as conclusões são as seguintes:
1) Norbert Elias, em A Solidão dos Moribundos, fala que não existe a figura “os mortos”, inclusive a expressão “nossos mortos” remeteria a um conjunto vazio. Os mortos não existem, assegura Elias, a não ser na memória dos vivos, e somente ali. O autor explica que a busca de significado para a existência humana só encontra resposta quando considerado o significado desta vida para outras pessoas (ele condena a idéia do teatro do absurdo, do indivíduo isolado, buscando na solidão uma razão para a sua própria trajetória). Daí explicar o sentido das lápides, que projetam a memória do sujeito para as gerações futuras.
2) Elias fala ainda que a morte e o moribundo causam horror aos vivos primeiro porque avisam da finitude que ameaça a todos e porque uma suposta imortalidade seria a solução para problemas recalcados na primeira infância. Durante a leitura do texto , projetei uma lista de perguntas que estava amadurecendo já havia algum tempo sobre possíveis indagações osbre o morto:
a) Quem é ele? (ele não é mais a pessoa que eu conhecia. É outro, silencioso, que não age mais familiarmente. Quem é, então?)
b) Eu sou ele? (Eu morri? Eu vou morrer?)
c) Isso (a morte) dói nele?
d) A culpa é minha?
e) Se a culpa for minha, ele vai se vingar de mim?
f) O que ele deixa/entrega/quer para/de mim?
g) Ele ainda quer o seu corpo? (ele ainda lhe serve?)
h) O que fazemos com o seu corpo?
3) No tocante à projeção do morto para a as gerações futuras, observo os epitáfios dando conta das “saudades eternas da esposa, filhos, netos...” como uma tentativa de socializar o morto na memória coletiva. A família o trouxe até ali e ele continua integrado a ela, para quem, vivo ou morto, pretenda sabê-lo. O simples fato de se identificar os túmulos diz respeito a conferir uma permanência do falecido na sociedade. Mas, então, o que se pretende é não deixar o morto sozinho. Não para que ele não perca o corpo, ou a alma, mas para que não perca a identidade. O pavor da morte não é, então,a perca desses dois vetores que se supõe na existência religiosa, o corpo e a alma, mas de um elemento mais subjacente e necessário, o ego, o eu, com suas idiossincrasias. O temor da morte é o temor da dissolução máxima, que ultrapassaria corpo, alma ou qualquer outra configuração, é o temor da dissolução do eu.
4) Então contrapõe-se: a Vida é o território do ego, da sua personalidade, da sua mesquinhez, da sua glória, da sua violência e da sua beleza. A morte é a negação do ego. O indivíduo deve ser enterrado pela sua família e passa a integrar as legiões do Céu (crianças como anjos na legião de São Miguel) – diluindo-se nessas identidades coletivas. Pergunta: Como se diferencia nesse caso a morte de indivíduos que tiveram vidas extremamente individualistas? Quanto à herança, se os bens materiais se dividem, o morto é também dividido?
Tuesday, January 22, 2008
A morte líquida
Eu fiz o ritual e
dormi dentro do terreiro, porque o pai de santo achava que não seria
bom que eu voltasse para casa no mesmo dia. Lembro que, quando fomos
despachar algumas comidas no mato, dois homens me levaram num carro e
disseram que deveríamos nos afastar sem olhar para trás, para não
vermos as entidades se apropriando da oferta. O ritual, com os
filhos de santo, foi feito só para mim, para as entidades que se
relacionavam com os mortos.
Dormi serenamente
naquela noite, embora num colchão muito fino, no chão de um quarto
fechado. Acordei cedo e bem disposto no dia seguinte e fui me sentar
numa cadeira na sala, onde fiquei observando algumas mulheres
adormecidas. Uma delas despertou, porém, e se assombrou. Ela
respirou fundo e disse:
- Meu Deus do céu,
pensei que fosse uma pessoa morta.
Eu dei risada.
Pensava que ela havia falado aquilo porque eu estava totalmente
vestido de branco, mas a filha de santo e as outras que foram
acordando em seguida me contaram que, durante a noite, tinham visto
muito movimento de entidades dentro e fora do quarto onde eu estava.
Parece que avistaram vultos também e tiveram dificuldades para
dormir, e passaram bastante tempo rezando. Elas eram umas donas muito
gentis, e todo o povo daquela casa também, e embora eu tenha ido
trabalhar no dia seguinte, mais tarde, de noite, nos reunimos para um
segundo ritual que completou o da noite anterior.
Depois, eu comecei a
ir ao cemitério do Campo Santo, que era próximo à Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas (UFBA, campus São Lázaro), onde
estava cursando a matéria Antropologia da Morte. Naquela época, a
Santa Casa de Misericórdia, entidade gestora do cemitério, mantinha
um circuito de visitas guiadas e tinha uma loja de souvenires no
local, e eu gostava de conversar com a funcionária que tomava conta
de tudo.
Certa tarde, vi
passar um enterro e descobri que era da mãe do padre Lázaro,
capelão do cemitério. Fiquei intrigado, tentando entender como
aquele homem estava fazendo o funeral de sua própria mãe. Conheci
algumas histórias interessantes, como a de um homem (apenas ouvi
falar) que desmanchava caixões usados e aproveitava a madeira para
fazer barracos e alugá-los. Havia também uma mulher com seus
sessenta anos que me contava que fora criada no Campo Santo, sendo
que a sua mãe, muito pobre, dormia dentro do templo. Ela relatou que
a comunidade ia ao local para comer frutas das árvores, bem como
retirar água de uma fonte ali existente.
Passei a frequentar
o Apostolado das Almas, que se reunia para rezar o Ofício das Almas
todas as segundas-feiras, no Campo Santo. Me aproximei da comunidade
da igreja e ajudei em muitas missas, com muitos padres diferentes,
que sempre me trataram bem. Travei contato com os diáconos da
Pastoral da Esperança, que fazem encomendações (últimas
celebrações antes do sepultamento) e ajudei alguns deles, e também
alguns padres em alguns velórios. Em alguns casos, lia um trecho da
bíblia que o celebrante pedia e puxava, com ele, cantos mais
conhecidos. Depois, em casa, tomava nota das coisas que tinha
observado.
Havia velórios mais
vazios, geralmente de idosos, e outros mais cheios, como foi o caso
de um operário vítima de acidente de trabalho, quando o sindicato
fretou um ônibus. Eu não vi, mas os funcionários do cemitério
narravam que o ambiente ficava muito tumultuado no sepultamento de
policiais e marginais envolvidos na guerra do tráfico que acontecia
nos bairros do entorno do Campo Santo. A responsável pelo circuito
de visitas guiadas me contava curiosidades sobre os jovens,
religiosos de diversas matizes, e outros tipos que andavam por ali,
além de falar das diferenças entre eles.
Não voltei depois
ao terreiro de candomblé, mas, por meio de uma colega de trabalho,
recebi um convite para conhecer o terreiro de Babá Egun, culto aos
mortos na praia de Ponta d’Areia, na Ilha de Itaparica. No ritual,
entidades (eguns) dançam dentro de roupas vazias, que têm o formato
humano, mas que são indevassáveis (espécie de bata com calça,
máscara de tecido, luvas e calçados). Para os fiéis, o conjunto é
movido somente pela entidade, que incorpora as vestes num quarto à
parte e entra na sala do público dançando, até sentar-se em um
trono. São várias entidades conduzidas por sacerdotes (ojés) que
usam uma vara sagrada. É interditado a pessoas comuns tocar nas
roupas em movimento, por risco de morte iminente.
Viajei de noite,
assisti metade do ritual e voltei quando o dia ainda raiava,
impressionado com a diferença nos procedimentos e na conduta
agradável da comunidade. Antes dessa experiência, já tinha lido
sobre aquele ritual (Jean Ziegler e Juana Elbéin dos Santos). Na
hora de ir embora, o motorista que nos conduziu até a praia onde
tomaríamos o barco contou histórias de assombração na vila, com
moradores topando à noite com eguns. O mais importante, naquele
momento, foi ter achado uma pista para uma ligação entre as
entidades e o Mandú, elemento que circula mais abundantemente na
cultura, principalmente no carnaval. Dias depois, achei um vídeo que
fazia justamente essa relação, falando dos mandus das festas de
Cachoeira (BA).
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